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Domingo, Março 26, 2006


Só pra saber, passei na USP.

E, só para saber, já estou enjoando da faculdade.

Mas mulher de branco é uma coisa linda mesmo. Pena que aquela coisa de "lá só tem gente inteligente" não chega nem perto da verdade. Eu, por exemplo, sou um burro. Eu entendia as coisas porque os professores de cursinho eram bons. Vem um professor sem didática e tenta passar alguma coisa que não entendo nada. Entrei na Med USP e descobri que não sou nenhum fenômeno intelectual. As pessoas acham o oposto, que a gente entra aqui e começa a se achar. Pode até ser, mas comigo aconteceu o oposto: deixei de me achar bom por ter entrado aqui. Boa sorte ano que vem para quem presta.

Mas e agora? Acabou minha fase, meu anos treinando para vencer o desafio do vestibular. Dois anos para fazer umas vinte horas de prova. E agora? A vida parece estar inteira na sua frente, mas você não tem o que fazer. É como fechar um jogo e ele não acabar, como se desse para continuar jogando - mesmo sem objetivo. Não se ter pais letrados causa alguns estranhamentos na pessoa. Eu, por exemplo, estranho quando algum brasileiro de cinqüenta anos fala inglês. Pra mim, estudo é coisa de gente jovem. E minha escolha profissional vai totalmente de encontro a isso. Pra mim, sotaque nordestino combina com arte, com literatura ou com política. Ouvir "o turnover point da aquaporina" em dialeto sergipano é um choque para mim! Principalmente quando é uma mulher de cinqüenta e um monte de anos. Minha mãe estudou mais que meu pai, mas pra mim ele sempre foi o mais instruído... e agora tem uma mulher com idade para ser mulher do meu pai que sabe mais do que ele, minha mãe e eu juntos! E agora?

Sou uma pessoa muito preconceituosa por falta de vivência. Como se o mundo fosse feito de feudos incomunicáveis. O que sabemos são boatos. Eu conheço o mundo por boatos freudianos, criados por mim. Mentidos por mim. Atravessei agora a muralha da minha cidade e vi que as coisas não eram bem como eu imaginava. Descobri o óbvio de novo: preconceitos caem com instrução. Não acadêmica, mas empírica. Descobri outra coisa também: sonhos de futuro não passam de preconceito. Queremos ser de uma maneira para não sermos de outra, para nos protegermos de um estilo de vida desconhecido. Cursar uma faculdade que cem outras turmas, em cem outros anos cursaram, é propagar um preconceito. É querer ter o poder de dizer "a sua faculdade imitou a minha, pois a minha é mais antiga" ou então "a minha faculdade, mesmo sendo mais nova, está anos luz à frente da sua". Muitas vezes entrar na medicina não é altruísmo, é egocentrismo. E egocentrismo é preconceito.

Talvez a metáfora do feudo não seja a mais interessante. Sou mais alguém que acabou de sair do ninho, lembrando de quando saí do ovo e se achou forte. Ficou se achando, mas esqueceu de que todo mundo à sua volta também conseguiu sair do ovo. No cursinho eu achava que sabia tanto... mas agora falta aprender a voar. Ainda.

Não vou, como de costume, ficar poetizando o texto e fazendo referências cruzadas. Vai seco como está, que é só um post para não tirarem o sítio do ar.

escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 09:56| argumentos.




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