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Sábado, Maio 15, 2004


A Glória

Morte, na maioria dos casos, significa fim.
Fim de uma vida. Fim de uma relação. Fim de uma história.
O ser humano, ambicioso que é, odeia as duas palavras. Odeia o término de algo, assim como detesta as revelações que todo o processo trás. O que a maioria não vê, entretanto - só percebe, forçosamente, diga-se, após anos, para única e exclusivamente aplacar a própria alma, para consolo -, é que o fim é intensamente importante. Todo fim traz um começo, indistintamente. A diferença está nele ser melhor, pior, ou simplesmente diferente. Na maioria das vezes enegrece.
Continuações iguais em beleza, forma, sentimento são triviais demais. Não ligamos. "Acabou a água do filtro, mãe", "Onde coloquei as aspirinas?", ad infinitum. Ninguém liga. Fazem bem.
A discussão torna-se pedante, arrastada e de mau gosto quando tentamos imaginar o porquê de um fim que só trouxe tristeza. Desnecessário dizer, colegas, que a morte de um conviva se encaixa nessa acepção. Uma amizade que vai para sempre significa o fim de conversas, a cessão de brincadeiras, a falta de alegria; o fim, enfim. Toda uma vida a dois fica, então, confinada a apenas recordações enevoadas, sépias, como uma película rasgada exposta às agruras do porão. Amizades vêm e voltam até que, na sua hora, aquele rosto tão quisto se torna apenas um pedaço de nada. Quando você ir, com sorte alguém tentará lembrar do seu rosto. O ciclo, a partir daí, se torna sangrentamente auto-sustentável. Infelizmente nós, prepotentes e arrogantes, podemos apenas assistir, passivos, a tudo. Podemos isso e chorar.
Algumas vezes, porém, alguém vai sem que fiquemos tristes. Um inimigo, um desconhecido ou um já conhecido ente querido.
Românticos disseram que a vida é uma prisão, e a morte seria sua chave. Em casos e outros, estavam certos. Há vezes em que a vida enche o saco. Nessas situações, não há nada mais louvável lutar ferrenhamente. E depois, óbvio, dar-se por vencido e fechar os olhos. Para sempre. Glorioso.
Mártires são assim. Heróis são assim. Olhe para trás. Como diz o poeta, "Todos meus heróis falharam. Agora estão mortos e enterrados". Nada mais certo. Ter herói sem conhecê-lo é ter um amigo imaginário, só não traz estigma. Heróis nacionais são uma fraude. Olhe para trás, não se desvie, porém. Veja heróis na sua família. Encontre-os. Esses são genuínos. Todos laudáveis. Todos falhos. Todos morreram com orgulho. Mereceram morrer: não por mediocridade, mas por jus. Todos precisamos descansar um dia.
Onze e meia de hoje recebi um telefonema. Meu primo. Visava meu pai. Entreguei o telefone, casa escura. Três palavras trocadas, pai desligou o aparelho e desatou as lágrimas.
Minha avó morreu.
Quando eu era jovem, na base dos dois, três anos, minha mãe trabalhava. Quem convivia comigo era justamente ela, mãe do meu pai. Minha infância foi separada entre "casa da vó" e "casa da cama", já que só chegava em casa à noite, para dormir. Além de senhora do meu pai, essa mulher foi minha senhora. Foi minha mãe. Foi meu ídolo, meu herói. Digo de boca cheia, sempre que posso, que a maioria do meu humor e da minha personalidade foi devido a essa. Meu crivo, minha sensatez, meu desgosto pela moda, meu senso crítico, minha rabugice. Devo tudo a ela.
Foi a mais forte das pessoas. Até ano passado, quando meu panteão de avós era completo, jurava que essa pessoa seria a última a me deixar. Foi a primeira.
Morreu, mas não de graça.
Há sete anos, em um exame, descobriram nela um tumor. Uterino. Câncer. Um ano de batalha e mau humor. Desaparecera a bolota. Médico preofetizou que, se em cinco anos não ressurgisse, tudo estaria bem. Quatro anos se passaram. A tireóde apitou, em desespero. Câncer.
Operações e tratamentos e sacrifícios feitos, mais que em todo o período, a tireóide é removida. Complicação cirúrgica, minha vó ostentava sem opróbio uma ferida imensa no pescoço. Ferida essa que não só aumentava, como cavava mais e mais na pele dela. Até mesmo eu, nojentista tarimbado, amante do insólito e do inquietante, tremi ao ver sua traquéia à mostra.
Meu pai é representante de vendas autônomo. Como tal, vai sempre que pode à matriz da empresa, localizada em São Paulo, como o apartamento de sua mãe. De uns tempos para cá a doença dela teve um aumento de violência, e eu - assim como todos da família - estava preocupado. Sou um pouco preguiçoso, e no dia em que fui visitá-la estava com sono, confesso, mas abençôo a hora em que me levantei da cama e espreguicei. Foi a última vez.
Visão aterradora. Minha vó magra, maltrapilha, sem voz e com sonda. E o olhar. Era um olhar auto-piedoso e triste, como se ela estivesse sendo humilhada. Como se nós, lá, sadios, estivéssemos humilhando-na. Naquele fatídico dia, tive certeza de uma coisa: ela devia morrer. Sem eufemismo. Desejei sua morte. A vida já não valia a pena, para ela.
Ao me despedir, a fiz prometer que me veria na faculdade, e que não iria embora antes. Ela quebrou a promessa.
Faz tempo já, mas uma vez prometi a ela que não choraria no dia último e definitivo.
Vó querida, você falhou comigo. Mantenho minha promessa, mas não tenho certeza se posso cumpri-la.

A Nair de Carvalho (Õ1931 - ¿2004)

escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 00:50| argumentos.




Quinta-feira, Maio 13, 2004


Olha, não tá fácil para ninguém, é verdade. Não tenho certeza absoluta, mas acho que estou no meio de uma crise criativa. Tá complicado.

Entretanto, fiquei com uma dúvida:
Você, bom bebedor que é, ao caminhar à noite na rua, em uma esquina, se visse uma garrafa de Caninha 51 - fechada, absolutamente sem possibilidade de terem mijado nela - cercada de velas, um franguinho já comido por vira-latas e farofinha esperta pra lá e pra cá, pegaria? Se não, por quê?

Pergunta idiota, não? Pois é. Isso é o melhor que consegui fazer. Dêem desconto.

escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 01:33| argumentos.




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Alguma dúvida? Reze.