- Sem Cabessa
- Como assim dois uísque?
- mau humor
- Cachaçaria
- Copy & Paste
- Uma dama não comenta
- Liquito
- Pra Quem Finge que Trabalha
- Appothekaryum
- Fulminantes
- Query
- 00Zero
- TornHeart
- Mais ou Menas
- Gritos Élficos
- Yugh
- Três Vozes


- RPG Menace
- Rotten.com
- SkyHell Webzine
- Procto Site
- OBN
|
|
Domingo, Abril 25, 2004
Uni-vos
Onde está nossa juventude?
Não com a palavra "nossa" no sentido particular, pessoal, mas sim em âmbito nacional. Pois respondo: nossa juventude está morta.
Antigamente, na época que nossos trisavôs davam umas enfiadas nas mucamas enquanto as esposas tricotavam, podia-se ver dois extremos da subjugação social. De um lado os escravos, do outro lado os jovens esclarecidos. No meio estavam os pais desses e donos daqueles, os temidos adultos na crise da meia idade. Como "mais ou menos" não é resposta que se preze, atenhamo-nos nos pontos finais da barra.
Estavam lá os negros, arrancados de uma terra cheia de mato e leão e tribo inimiga e jogados em um lugar cheio de mato, capatazes e com o chefe da tribo inimiga dormindo ao lado. Grande merda de troca. Em vez de caçar para comer, o trabalho. Se não corressem, na Mãe África, seus fêmures seriam usados para palitar o dente de algum tigre. Aqui, caso tivessem preguiça, levariam umas boas bordoadas de tiras de couro cru. Trocaram gato por lebre e de brinde ganharam um cruzeiro no Atlântico. Justo. Se não viessem para cá, alguma praga - ou algum inglês, que no final é a mesma coisa - dizimaria tudo mesmo, melhor que tenham vindo.
Justo ou não, o fato é que comiam. Custavam caro, e nenhum senhor que honrasse as calças que vestia ao menos pensaria em deixar um desses sem comer. Ora! O bom é que trabalhem mesmo. Em alguma parte da história do Brasil escravocrata deve ter havido um dia em que a população negra superou a branca. Quantos capatazes tinham para cada dez negros? Acho que um ou dois, no máximo. Uma rebelião geral viria a calhar. E olha que insurreição pequena e fuga era o que mais acontecia - Dizem por aí que foram os romanos que inventaram a favela. Não poderiam estar mais errados: a favela moderna é uma criação genuinamente brasileira! Antes dos guetos ingleses, antes dos aglomerados hi-tech japoneses, Zumbi e a nação do ébano já barbarizavam pelo interior brasileiro! -, mas a massa escrava nunca se uniu realmente. Talvez nem meios dispunham. O pulo do gato, entretanto, não está em nada disso. Alguns gostavam de trabalhar. Ganhavam comida, lugar para viver e ainda comiam as moreninhas, viuvinhas e Cecílias das casas-grandes. Trabalhavam, porque não tinham para onde ir. Não tinham idéias. Não tinham futuro.
Do outro lado da parede, estavam nossos queridos bisavôs, filhos dos donos. Não ligavam a mínima para a cana de açúcar. Queriam mais era estudar fora e foder alguma francesa. De fato, os que podiam faziam isso com o respaldo mais que dado dos pais. "Vais encontrar o mundo", diziam os pais, "coragem para a luta. Agarre alguma francesa". E eles iam. Iam, comiam, liam, estudavam, conheciam a livrarada daqueles alemães cheios de furúnculos na bunda e ficavam cheios de vontade de quebrar tudo. Voltavam pro Brasil, diploma na mão, e badernavam. O legal de ser brasileiro é que, se você for branco e sua família for católica, é quase certo de que algum dos seus parentes era um conspirador. Conspirar, aliás, depois do churrasco, é a melhor invenção da humanidade. Conspirar no meio de uma churrascada, então, meudeusdocéu!
Uma outra parte da pirâmide social que quase sempre é ou esquecida, ou ignorada, são os militares. Esses, sim, são uns desgraçados. Não podem ver um mirim qualquer no governo que já tratam de usurpar a cadeira. Incrível. Aconteceu com o Pedrão Dois, com o Jango e com todos os americanos sempre, visto que lá a presidência é um cargo militar. Vai entender. Uma coisa, entretanto, é certa: militares são uns miseráveis. Inventaram a república para eles governarem (Dá-lhe Deô!), dão aos civis, tomam de novo o poder (heil Castelo!) e ainda querem que todo mundo seja militar (Bush & cia).
Se os militares fazem o poder, os jovens, que não prestam para iniciar as coisas, se saem muito bem roubando. Os militares faziam dinheiro aparecer na privada de casa, mas não deixavam ninguém ler um jornaleco em paz. Censura, por sinal, é a maior invenção da humanidade, perdendo só para os puteiros (esses sim, creditamos aos romanos). Censura consegue nos fazer pensar que tudo está bem quando um assassino serial mata todos da sua rua que moram em casas de números ímpares e você mora no 36 Fundos. Vivo você fica, mas... e os outros? Censura é ótima por responder essa pergunta do jeito mais animal possível: "que outros?"
Aí que a juventude daquela época entra. Brigaram, subverteram, choraram, sofreram, criaram códigos, quebraram barreiras, cutucaram o governo, resistiram à tortura. Jovens espertos como eu e como você.
Mas e agora, onde está nossa juventude?
É chocante, mas a verdade é que existe um misto de conspiração, censura e comodismo barrando a resposta dessa pergunta. Estamos mais espertos do que nunca. Aprendemos coisas de faculdade de Engenharia de 1969 no terceiro colegial. Temos internet. Pesquisa a um clique. Antigamente, para citar algum autor precisava-se ter muita moral. Teria de ler o livro, entender, guardar e lembrar de falar, na situação pertinente. Agora, com a rede, até eu cito meio mundo em conversa de boteco. Enrico Fermi uma vez perguntou "onde eles estão?" Inteligência alienígena? Sim. Disseram que estavam na Hungria. Mas, onde eles estão? Ou melhor, onde estamos? O mundo está uma bagunça, e quem supostamente o mudaria? A gente? Se somos, onde estamos nós, afinal?
Pois estamos na senzala. Eles nos dão comida, roupa, sapato, conexão com o exterior e jocosamente repetem a recomendação. "Vais descobrir o mundo, coragem para a luta". Que luta? Não lutamos. Não querem nem que comamos as francesas. "Coma a vizinha. Ir para o exterior agora é complicado, filho. Terrorismo e tal. Nosso bairro tem vigilância, é mais seguro comer a vizinha. E coragem para a luta". Não obstante, essa última frase não significa absolutamente nada. É citação vazia, quase igual às minhas, no balcão do botequim. No máximo significa "se forme e ganhe dinheiro, mané, porque eu morro e você fica." O mundo está estagnado, mas isso é porque não fazemos nada. Estudamos, lemos Proust e Marx, comemos a vizinha e morremos. Escravos trabalhavam, comiam, dormiam e faziam sexo. E ainda achamos que as vidas deles que eram medíocres.
Poder nós temos. Capacidade nós temos. O que falta é visão. Sabemos que está errado, mas não temos muita certeza do que exatamente. Eles, enquanto procuramos respostas, riem e contam o dinheiro da venda de mais um M. Officer. Se continuar desse jeito, é muito provável que, ao perguntarem "onde está a juventude", nós, no alto de nossa torre de marfim, futilidades e planos secos para o futuro, respondamos, em coro: que juventude?
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 22:46| argumentos.
Segunda-feira, Abril 19, 2004
Gente, tem um metrossexual na minha sala!
Sim, um metrossexual! Uau!
Sério, é muito... não sei a palavra. É indizível. É incrível! E quando Hitler queria matar todos os viados, o pessoal fica dizendo que é preconceito. Não tenho nada contra gueis, mas homens que são homens mas parecem gueis é sacanagem. É como mascarar um produto. Colocar vinte bolachas em um pacote que cabe vinte e cinco é ficha perto disso.
A criatura parece um cilindro com seios. Ia fazer uma figura no 3dsmax, para mostrar-vos toda a angústia em imagens e não palavras - coisa que me falta agora. É inimaginável a vergonha, temor e sensação de que "tem alguma coisa errada" de ter um ser da raça do Beckham (ou Bekham, o diabo que o carregue) por perto, vigiando matutamente, pensando na próxima combinação de roupa e desgrelho de cabelo. Dou um cubo de carne a quem adivinhar a profissão que tal figura quer exercer. Chutem nos comentários, minha prezada meia dezena de leitores, pois minha caixa de entrada está lotada.
Como metrossexualismo é uma coisa muito cativante - só assistir a um capítulo qualquer do Queer Eye for a Straight Guy, ou coisa que valha a piada -, preparei um interativo, onde você, caro leitor, pode viver um dia como metrossexual, fazendo aquilo que ocupa quase três terços de seu cérebro: "viver".
Clicai aqui e jogai VIDA DE METROSSEXUAL.
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 00:11| argumentos.
Sábado, Abril 10, 2004
Bom... pensei que o weblog estivesse menos atualizado. Coisa de uma semana e meia, quando na verdade é apenas uma semana, redonda. Escrevi isso quinta. Está grande, está carregado, mas é legal. Eu achei. Três páginas. Ficou gostosinho.
Bom... mudei de cidade e de casa. É para, dia desses, ter uma churrascada de inauguração. Se você mora em São José, lê o Semântica e quer puxar o saco dos articulistas pessoalmente, ou apenas jogar conversa fora, conhecer gente nova e tomar uma, manda um email para mim com o motivo de querer vir para cá e seu nome completo. Não vale estupradores e assassinos.
O Papel
- Toma, filho. Preenche e paga o Carlo.
E o menino pegou o papelote. Estava atrasado para a aula de matemática. O pai, simpático que era, foi pescar com os amigos e esqueceu que deixara o rebento sem condição de ir à escola sozinho.
- Tá bom, pai. Tchau.
Deu a volta no carro - estava no meio da rua, conversando com seu tutor pela janela - e se apressou para passar pela portaria do local.
- Filho! - Grita o velho, desesperado e confuso.
E o garoto parou e volveu meia volta. Abriu os braços, incrédulo, e foi andando até o carro, pagando na mesma moeda:
- Que é, porra?
- Vem cá.
Ele olha para os céus, avermelhado com o alvorecer, rubro como a ira divina, caída em cima dessa pobre alma que deseja apenas saber quanto é dois mais dois, diabo! Putz, o que é?
- Vem cá, cacete! - o barbudo mandou, fazendo movimentos desregulados e amplos com o braço desaparafusado do volante. O moleque, sem alternativa, encarou seu futuro diabólico de ignorância lógica e numérica e foi até lá, mirando azedo o pára-brisa, tentando intimar seu pai a sair do carro e acabar com a palhaçada no braço, agora mesmo, lá mesmo. Com uma levantada brusca e sutil da cabeça, pesca a resposta:
- Diz.
- Ó... - tentando encaixar pensamentos - se o Carlo não quiser deixar você voltar no carro, liga para mim vir te buscar.
As palavras entraram como ouriços pelos ouvidos dele. Já não bastava o cárcere que seu pai causou com a matemática, agora apunhalava a língua pátria. Não pensou muito em responder, até porque o pai não tinha feito exatamente uma questão. Só frisou o óbvio, obviamente.
- Bah. Tá bom, pai. Tchau. - exalou, pronóstico, já andando com a mão na bunda procurando a carteira.
- Liga para casa! Não liga no celular porque ele não recebe a cobrar! - Emendou o pai, só de passagem. O menino, com o crachá já na mão, mostrando para o porteiro, bufou, desacreditado.
- Tá bom, pai. Tchau. - reiterou; de soslaio mirava o carro.
- E boa aula! - apeteceu o senhor.
- Tá bom, pai. Tchau. - disse, de costas, deixando clara com a repetição seu desejo não de boa viagem, mas de rápida partida. Entrou. Seu pai, do lado de fora, enfiou o pé no acelerador e seguiu seu destino.
Chegou à aula e sentou em qualquer lugar. Após a estafa habitual de quem entra correndo, tornou os ouvidos à dialética do professor. "... Taham, para quem nunca leu, foi um grande professor de matemática. Apesar do nome, o rapaz era brasileiro. Ele foi esperto. Pensou: 'vou escrever e assinar com um nome esquisitíssimo para todo mundo pensar que sou de outro país e comprar e ler meu livro'. Fez isso e todo mundo caiu. Seu livro mais famoso, O Homem que calculava, está cheio de probleminhas interessantes. Recomendo. Bom... dito isso, entramos agora na parte de divisão. Olhem..." - fez um rabisco na lousa, prontamente copiado por todos da sala - "... matematicamente é impossível dividir infinito por dois e pegar a raiz como inteiro qualquer, mas, em questões mundanas, conseguimos dar um jeitinho, e é aí que o Malba entra. Quem leu sabe a resposta, e para eles peço para não contar à ninguém até amanhã. Para casa: Um homem foi condenado à prisão perpétua. Após uma forte discussão da corte, o juiz voltou atrás e dividiu a pena do coitado pela metade. Quanto tempo o réu fica na cadeia? Amanhã vocês me dão a resposta ..."
A atenção do garoto pela aula esfumaçou-se. Começou a desenhar algumas bolas no caderno. Riscou um oito deitado e o cortou ao meio. O traçado do oito é infinito, abstraiu, e o do zero, das duas bolas resultantes, também. Criou uma bola e a dividiu. A bola era interminável, mas os dois arcos restantes terminam tão logo a curva acaba. Incoerente, concluiu.
Seus pensamentos cessaram ao toque do sinal de intervalo. Ainda embevecido, o garoto levantou a cabeça para tentar sondar o ambiente. O professor, ciente de já ter feito sua parte, caminhava agora para o Financeiro. Era gordo, e, de fora, tinha-se a impressão de ele ser uma rolha da 4-3a. Abriu a porta e saiu correndo, voando como cortiça voa em reveillon, seguido por uma leva de infantes, ávidos por ar fresco e conhecimento não acadêmico, se jogando e espalhando como espuma de champanha. O garoto era a parte malograda da bebida. Sentado, recebeu na omoplata direita o suave impacto de mão esquerda feminina.
- Ei, você! Tudo bem? Por que não foi sentar lá atrás?
Ele levantou o rosto com pesar, como se a face da menina fosse um sol ardente, impossível de se olhar. Cerrou as pálpebras e subiu as sobrancelhas.
- Oi... é que; sei lá; sentei aqui para ficar mais rápido. Queria assistir à aula, se fosse até o fundo ia perder mais do que já perdi.
Ela, com a respiração pressionada, repeliu o riso.
- Bobo. - e mudou de assunto - Olha... nós vamos para a Lan House depois da aula. Quer ir?
Piranha. Já devia ter dado para todos da sala. Devia ter dado para todos da escola, já. Ele não. Estava meio confuso, meio com sono, não queria discutir.
- Claro. - mudou o tom de voz - Viu o Carlo por aí?
Ela, quase fora da sala, lacônica, respondeu:
- Não. Faltou.
Menos mal, pensou. Coisa a menos para mim - maldita osmose ¿, para eu fazer. O sinal voltou a tocar.
Qual a metade de infinito? Verbo? Estrelas são infinitas? Léxico? Melhor dizendo: existem infinitas estrelas? Sim, adjetivo flexiona de acordo com o substantivo; Não, advérbio não. Quão grande é o infinito, e qual o tamanho das suas partes? O Sol é dez vezes maior que a terra? Não, mais. Vinte? Não, mais. Cem? Não, mais.
Infinito?
Não. Mais.
O sinal tocou. A vibração do martelo que bate no gongo passou para a petizada, que correu, em êxtase, para fora e para casa. Um rapaz se aproximou do garoto.
- Ei, mano. Vamos?
Alheio completamente, respondeu, breve, que sim. Vamos.
E foram. No caminho, silencioso como as árvores que faziam sombra e cenário, passavam os três e ele. Dois meninos, a menina. E ele. Conversavam futilidades e um deles olhava insistentemente para a garota. Ela se fazia de rogada e rebolava mais e mais. Era bonita. E puta. Um dos amigos perguntou, incisivo:
- Por que você chegou atrasado?
Ele piscou os olhos repetidas vezes, procurando a resposta na cabeça, e respingou, meio tonto:
- Ah, longa história. Meu pai foi pescar e esqueceu de ir em casa me buscar. Depois fez hora na entrada. - seu ânimo aumentou. Sua cadência de fala melhorou um pouco, e começou a devanear - Ele estava meio bêbado, chegou até a me dar um cheque em branco assinado, só para mim pagar o Carlo. E ficou falando umas besteiras, e não sabia o que falava. Tava foda.
- Olha o Tarzan, pessoal. - observou a garota - "Para mim fazer", cara? Não era você que enchia tanto o saco dos outros por causa disso?
- Ah... é que hoje eu estou meio dopado - desculpou-se, sem graça.
- O cheque está com você ainda? - indagou um colega, curioso.
- Lógico. - conciso, matou.
- Opa! Demorou então para pagar o corujão para a gente! - brincou um quarto.
- Rá, rá, rá. - riu-se, irônico, o garoto. Mudou de frente - Alguém sabe quanto é metade de infinito?
- Sei - disse rápido um dos caras ¿, é a fila que vamos ter que enfrentar na Lan House se a gente continuar nesse passo.
Riram risos falsos e correram. Chegaram.
O menino, lembrando das palavras do pai, pediu à amiga, esbaforido da disparada:
- Guarda uma cadeira para mim. Vou ligar para o meu pai. Ele pediu para ligar.
Ligou. A cobrar, para casa.
- Alô? Pai, eu vou voltar depois. Estou com uns amigos aqui, tá? - avisou, sem pausa.
- Alô? - perguntou uma voz de comediante sabatino.
- Ouviu?
- Tá bom. Tchau. - decretou, com sono, e desligou.
Bom. Avisei, ao menos.
- Ei! Vai vir ou não? - chamaram. Ele colocou o telefone público no gancho e correu para seu lugar. No meio do caminho, entretanto, lembrou-se de súbito do papel que seu pai havia lhe dado. Afundou a mão no bolso e achou o filete. Andou, lendo o dinheiro, até o lixo. Estava assinado, com assinatura bem pomposa. Intrigou-se com o fato de não ter notado seu pai rubricá-lo em momento algum. Será que ele andava com um cheque assinado no bolso? Improvável. Olhou para a face do cheque, envolto pelo desfocado fundo redondo da boca do lixo vazio. Imaginou, na guia do valor, um oito deitado. Esse cheque poderia valer dez reais. Poderia valer vinte. Cem. Poderia valer mais, enfim; poderia valer infinito. Sorriu. Rasgou o papel ao meio. Levantou as mãos à altura dos olhos. Estava segurando duas metades de infinito. Não valem nada, findou. Resolvera o mistério, imprimindo nas notas com os gulosos e argutos olhos um retumbante ponto final à dúbia contenda.
Sorriu, vitorioso. Picou o cheque em branco infinitas vezes e foi jogar.
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 19:56| argumentos.
Sábado, Abril 03, 2004
Tancredo!
Nossa mídia é foda.
É de se espantar como nós, brasileiros pensantes, conseguimos viver, alguns com mais, outros com menos, e assistir tevê ao mesmo tempo.
Cabo ou satélite são mesmo os melhores amigos do homem. Não por trazer entretenimento e informação de primeira, mas por nos dar ao menos uma alternativa à Globo ou SBT ou Record. SBT é um caso à parte, já que o Silvio Santos, o judeu mais simpático que Israel já concebeu, não se interessa muito por jornalismo. Na Record, mesmo com todo o crédito do mundo, ninguém assiste ao Bóris Casoy. Além disso, os dirigentes recordianos são adeptos à vertente "ignora que viverás melhor" cristã e, mais especificamente, evangélica. A Globo, por sua vez, tem predominância católica. Como o Brasil por si só já tem oitenta ou setenta porcento partidários do Vaticano, a mídia Global é a que mais se parece com o que gostaríamos de ver: verdade, transparência, bom senso e amor à família. Também gostamos da Ana Paula Padrão, mas, óbvio, pela sua personalidade, garra e credibilidade, e não pelo cabelo sedoso ou corpo esguio.
Algo que me deixa extremamente triste, e, supostamente, deveria deixar a todos um artrópode hematócito atrás do lóbulo auricular é o fato da mídia controlar nossa vida. Quantos de vocês têm ou teve uma Calói? Quantos de vocês já tomaram MüK? Aquela crosta praticamente impermeável de chocolate joga muito Nescau no chinelo. Aliás, até Toddy é melhor que Nescau. E ovo de páscoa? Nestlé, não? Pois tenho certeza que sua vizinha faz melhor. Tele-sexo? A voz da sua vizinha é bem mais gostosa. Voyeurismo? Pois a secretária do seu chefe é bem mais gostosa que a Juliana. Você só não nota isso porque fica vendo tevê, diabo. O mais triste é quando a televisão, que deveria apenas informar e divertir, entra no ramo da politicagem. Mídia é o ópio do povo, e nos últimos tempos vêm em uma embalagem com os escritos "Vote Carlão".
Quem não se lembra do nosso grande, alto e gostoso ex-presidente Collor de Mello, nome já coroado desde o batismo com a faixa bicromática presidencial, primeiro ele verde, segundo ele amarelo (a letra, não o pronome)? Nossa colega de jornalismo nota dez, famoso grupo Globo - grupo que, por sinal, hospeda esse texto que vos escrevo -, foi como um pai, como Sarney foi para Roseana, nas eleições. É quase correto dizer que a Globo que deu o título de Excelentíssimo para o Collor. Não digo que seja isso uma coisa feia de se fazer; ninguém queria o Lula lá, principalmente naquela época que ele não tinha nenhum fiapo branco na barba e estava com a masculidade à flor da pele. Essa tendenciosidade foi notada e, para jogar os noves fora, a campanha de impeachment foi também endossada pela empresa. Imparcialidade é neutralidade. Levando em conta que os fins justificam os meios e que a Globo começou ajudando e terminou fodendo, um e menos um é igual a zero e a neutralidade fica aí estabelecida em um enfoque geral. Papai dizia que foi tudo um engodo, e Collor não era mais que um laranja. Com o peso da idade, também comecei a ter certa convicção disso. Papai sempre dizia que Pedro, o fraterno irmão do nosso exilado do poder, que era o sanguessuga filho da puta. Eu digo que, agora, isso já não faz diferença nenhuma.
O que me aflige mais, entretanto, é algo mais contemporâneo. Vocês, por acaso, ouviram falar do Maluf ano passado? Eu não. E ano retrasado? Com certeza. Esse ano, como presente ano par pleiteante, não poderia ser diferente. Nhô Maluf e seu negrinho fugidio Pitta - agora no Quilombo de PTN atacam novamente. Veja não disse nada, por enquanto. Época já deu a capa. Época é da Globo. Aposto e ganho que já já o JN está falando mal de outro dos semitas com os sorrisos mais cativantes do Brasil. Se é que já não falou.
Sim, sou malufista, e acho - mesmo se fosse com qualquer outro pré-candidato - essa perseguição uma sacanagem. Tenho dezoito, e sonhava em fazer meu título na cidade de São Paulo, só para me juntar às legiões do líder populista mais rico do país, mas a Globo, com essa política antipolítica, impediu Maluf de candidatar-se e meu posterior voto a ele. Não só por ser sequaz ao Paulo fico mal. O buraco é mais embaixo, e tenho certeza que muitos compartilham do meu ponto de vista. Não é a não candidatura do Maluf que me deixa chateado. Isso me entristece: saber que meu voto valerá menos - ou não valerá nada - por causa de pessoas que assistem ao Big Brother e tem medo de textos com mais de uma página. É lamentável.
Observação: Vocês viram a capa da Exame que vigora? O Palocci deixou de ser ministro e virou prostituta? A Exame parou de editar textos corporativos e se transformou em uma concorrente da Playboy? Cacete, onde esse mundo vai parar? E, by the way, Heil Waldomiro!
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 00:07| argumentos.
|
|

|