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Quarta-feira, Março 31, 2004


O enigma do sorvete
Peque.
Imagine que você possa morrer duas vezes. Morre uma, volta e morre de novo, para sempre.
Agora imagine que, uma hora antes de morrer, você - já almoçado - tenha tido uma vontade avassaladora de tomar sorvete. Não tomou. É pecado. Morreu com vontade.
Morte chata.
Volta à vida. Já sabendo que morrer sem sorvete é uma merda, você toma o sorvete. Morre de novo. Gosto de morango ainda é sentido pelas papilas gustativas sobreviventes por um tempo. Morreu feliz.
Você não sabe como é depois da segunda morte, e nem pode voltar a viver agora. Mas tomou o sorvete. Aproveitou o tempo.
Não precisamos saber o que tem do outro lado da vida. A morte é a constante.
Tome o sorvete. Peque. Se for o caso de você achar o sorveteiro do outro lado, pague-o. A satisfação do sorvete vale o investimento. Se não achar o sorveteiro, o sorvete saiu de graça.
Peque.

escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 14:09| argumentos.




Terça-feira, Março 23, 2004


Olá pessoal, sentiram saudades? Eu, o LUCAS, sim. Sem seus comentários em meus escritos, meus dias de trabalho (um saco!) se tornam tristes e amargos. Mas isso há de cessar, pois agora vos apresento um conto baseado em fatos reais (pelo menos me disseram que era verdade). Ao contrário do meu último conto, este é menos sério, e não tem nada para acrescentar a ninguém. Aí vai.

---The Waltinsaga---

> Prólogo no Crepúsculo

Waltinho era filho único de uma família muito pobre. O senhor Jiló e a dona Maria o amavam muito, pois ela não poderia mais ter filhos. Ele nunca teve muitos talentos, ao contrário do seu grande amigo Josefino, vizinho, que tinha muitos irmãos, todos fortes e inteligentes, uma linda irmã chamada Josyvânia e, mesmo assim, se destacava sempre. Era o imbatível nas peladas; o campeão nas tretas; amigo dos traficantes e dos policiais; aluno número um, com bolsa em um cólegio particular modelo. Sempre tinha as melhores namoradas, conseguia todas no baile funk, mas, para sua capacidade privilegiada, tinha um sonho inusitado: se tornar pedreiro, um grande artista cuja aquarela teria as cores tijolo, bloco, cimento, areia e pedra e os pincéis seriam de metal. E claro, na sua sombra, o irmão de consideração Waltinho, que como um peixe-piloto (caso não seja o peixe piloto, favor me avisarem, e eu corregirei) só se aproveitava da carne desprezada pelo tubarão Josefino, seguia o mesmo caminho, e tornava para si ser pedreiro também uma grande meta - até porque nunca tinha tido uma grande meta. Na verdade, tinha.

> Vida de Bosta

Desde a primeira namorada, a linda Rutileide (que não era linda, era a Grande Deusa das Bagas), não houve mulher que encarasse o mirrado e feioso Walter e não deixasse bem claro (muito mesmo) que elas só estavam com ele para ficar perto do Josefino.

Uma vez, após os dois amigos ficarem brincado por horas de Pouerrangis na casa do Walter, quando ao longe Josefino acenava indo embora, os pais de Waltinho disseram coisas como: "A dona Marinalva teve sorte... seria tão bom um irmão assim para o Walter"...
O garoto, com seus seis anos de idade, chorou muito nessa noite. Quando a dona Maria viu, não deu outra. Uma sequência de sopapos no melhor estilo Rocky Balboa para fazer o moleque "relaxar".

Na escola, as melhores notas eram de Josefino, as piores (da escola e da história de alguns professores) eram as de Waltinho. Sim. Walter tinha uma meta. Ser um grande pedreiro. Melhor que todos. Melhor que... Josefino.

> A Tristeza Do Jeca

O primeiro dia de serviço chegou. O mestre de obras, Porco Maia, deu aos dois uma simples missão. Preparar cimento. Foi exatamente o que Waltinho fez. Rápido. Terminou primeiro que Josefino e encostou em uma parede, sorridente. Sem querer, dormiu (pois durante a noite ficou rezando e a ansiedade não permitiu que ele dormisse). Enquanto isso, Josefino fez com calma, e muito bem. E não parou por aí, espontaneamente já começou a ajudar aqui e ali, carregou a massa que tinha feito para onde precisavam, isso e aquilo, e etc. Assim, se tornou no primeiro dia o favorito de Porco Maia. Já Waltinho... quando acordou, a massa tinha secado, e seu pé havia ficado preso. Os outros pedreiros se reuniram para rir dele, enquanto tentava escapar com desespero, mas em vão. Josefino, tentando não rir, quebrou um pedaço do cimento, e conseguiu tirar o pé do amigo, mas não a bota, revelando a meia furada do Juventus que ele usava. Todos riram até perder o ar. Walter chorava de raiva, enquanto o amigo tentava acalma-lo, sem sucesso. E esse foi só o começo.

Dois anos depois, não podia ser pior. Waltinho era empregado de Josefino, que agora era estudante de engenharia civil. Era mais um dia de infindável humilhação. Waltinho era responsável por um grupo de pedreiros, graças ao seu amigo de sucesso. Mas estes não o respeitavam nem um pouco, riam sempre de suas ordens e falta de jeito.

> O Grande Vôo Da Ave Vingadora

Então, chegou grande dia. O dia D. Estavam todos terminando uma obra, um predinho de cinco andares. Retiravam os materiais de construção, e só faltavam 250 quilos de tijolo que estavam no quinto andar. Ninguém queria ir carregá-los em 50 viagens. Restava falar com o seu Josefino, que sempre tinha uma boa idéia e... não desta vez. Agora era a sua hora, Waltinho. Vai lá! E foi o que ele fez. Observou o que precisaria para por o genial plano em ação: um latão de lixo (que estava cheio), uma tampa de bueiro muito bem fixada ao chão, com um invulnerável puxador bem grosso de ferro, uma roldana e cordas. Com um sorriso de vitória, instalou a roldana na parede externa do quinto andar, passou a corda, envaziou o latão, amarrou uma extremidade da corda, e a outra no puxador da tampa. Todos olharam espantados - que ótima idéia! Logo de Waltinho! Sorridente, ele foi e despejou os tijolos no latão (que havia sido previamente puxado até o quinto andar). Desceu, acenou para os subordinados, que o cumprimentaram, e então, soltou a corda do puxador.

_Não, Walter! _gritou Josefino. Waltinho se esqueceu de soltar a corda, sendo puxado a uma velocidade estrondosa para cima. Pela altura do terceiro andar, sua cabeça se chocou contra o pesado latão, fazendo-o dar um grande grito. Apesar da pausa, o latão continuou a cair, e Waltinho a subir. Então, ao chegar no quinto andar, a mão de nosso herói entrou na roldana, triturando quatro dedos. O sangue caía na cara deformada pelo sofrimento e pelo pânico (se bem que antes já era deformada). E BLAM!. O latão caiu no chão. Só que a forte batida abriu um buraco em baixo. E o tijolo... bem, o tijolo caiu do latão, se esparramando no chão. E o latão, cujo peso levantou Waltinho, agora jogava-o cinco vezes mais rápido contra o chão. E, diante da explosão do crânio de Waltinho contra os tijolos, a reação dos presentes foi única. Todos choraram a trágica morte de Walter. Todos choraram...


... de tanto rir.

escrito por LUCAS VIEIRA às 16:41| argumentos.




Quinta-feira, Março 18, 2004


Putaqueopariu! Qual corno, fui o último a saber! Semântica no Blogs of Note, diacho!
Como já disse abaixo, estou enfrentando uns pequenos problemas de disponibilidade. Não mais estudo integralmente, porém trabalho e estudo à noite, o que torna tudo mais delicado ainda.
Falei um dia, não sei com quem, nem sei se a pessoa lembra. Profetizei o dia que o nosso querido weblog entraria ou na lista B.O.N. ou naquele mini-paga que o Bloggerman escreve. Sabiamente, modéstia à parte, disse que "quando a porra do blog entrar numa dessas, vai estar o mais desatualizado possível". Pimba. Já posso ser candidato a Messias Século XXI. Cristo já tá velho, precisa descansar, coitado. Tá na hora já.
Tendo em vista que mudei radicalmente meu círculo social, jogo verde: quem, por acaso, for fã dos meus escritos e, por ironia, estudar no Anglo Cassiano Ricardo, noturno, por favor, buzine. Isso, claro, se for homem. Se for menina, dá um alô, porque buzinar é um verbo muito feio. Sou feio, tenho gostos mórbidos e chato até o talo, mas o que importa é o interior.
Falando em interior, um dos meus interiores favoritos é a parte de dentro dos bovinos. O texto se explica.

O prazer da carne
Prazer, para os cristãos, leva ao inferno. Para os hedonistas, é o próprio céu. Os seguidores do budismo, mais acanhados, têm todo aquele mito sobre a Nirvana, onde encontrariam o prazer espiritual mais elevado. Os monges tibetanos, presos em seus monastérios, encontram o prazer na oração e reflexão. Nós, meros mortais, encontramos o prazer supremo em um simples, fácil, prático e enorme naco grosso de carne.
Mais gostoso que sexo (para quem pode), mais invejado que dinheiro (para quem tem), mais emocionante que futebol (para quem gosta), carne é o prazer máximo da vida de uma pessoa que não tem nenhuma aspiração à vida eterna. O sentimento em saber que está devorando um animal no mínimo cinco vezes mais pesado que seu amigo obeso é um prazer enorme para nós, humanos, seres evolutivamente onívoros mas que, num passado muito distante, teve medo de um búfalo qualquer. Comemos de tudo hoje, talvez, para simbolizar um tipo de vingança sobre os animais que se achavam no passado e agora não passa de gado.
Ultimamente, todo mundo come carne de todo mundo. Até uns tempos atrás, comia-se apenas o tripé gastronômico básico vaca/frango/peixe. Hoje em dia, devido principalmente ao estreitamento nas relações entre o oriente e o lado oeste do mundo, comemos até cobra. Lagostas, siris, camarões, agora é tudo normal, mas nenhum animal, nenhum mesmo, consegue tirar do ponto mais alto do pódio a incrivelmente extasiante carne de boi.
Mas humanos conseguem. Vegetarianos. Essa raça!
Vegetarianos e também aqueles americanos cheios das dietas, mas esses não contam, visto que a mais conhecida delas, a de Atkins, até incentiva o consumo bovino. Deixemos de lado o tipo, porquanto.
Vegetarianos são estranhos. Renegam o motivo de sua sapiência pelo bem da sapiência. Não entendem que carne nos faz engordar, crescer, tem proteína e ainda segura o cabelo no lugar; e tem caloria, e tem ferro, e tem fibra. É demais. Sem Galeto de Ouro e similares, não descobriríamos as microondas, com certeza.
Cá entre nós, aliás, boi é foda. Comemos praticamente o corpo inteiro do bicho, deixando só os ossos, as patas e a cabeça. Os ossos são transformados em enfeite por boiadeiros, a cabeça é adorno de bar de beira de estrada e com as patas se faz um doce de gosto meio que duvidoso, mas já de ótimo tamanho para uma coisa que só serviu para deixar quinhentos quilos suspensos no ar por quarenta anos. Até ele vivo dá show: queijo, nescau, pingado... tudo culpa do chifrudo. O que os vegetarianos não entendem é que essa sinédoque denota ruminantes, e não o cramulhão, pai de toda a mentira. Aí que está a causa de toda a discórdia. Discórdia sim: é impossível conjecturar que alguém não consiga gostar de carne. É impossível admitir; passível de tratamento, como aquele infeliz que tem fobia a sexo.
Vegetarianos também discutem entre os iguais, mas mais sutilmente. Existem, basicamente, só pincelando, duas vertentes anticarne dominantes: os salutistas e os cirenaicos. Vos explico: Salutistas vêm do adjetivo "salutar" que, por sua vez, vem do latim "salutare", conservação da vida. Esses são os mais chatos. São aqueles que não gostam, não comem (às vezes até gostam, mas se esforçam para não comer) e ainda pentelha todo mundo. Diz que é feio, que é sacanagem, que é anti-higiênico, e termina a argumentação falando que é ruim para a saúde. Na casa do caralho! Cirenaísmo, por outro lado, foi a escola fundada por um discípulo de Sócrates muito folgado, o Cirene, e pregava que o esquema da vida era curtir. Vegetarianos desse tipo são menos invasivos, e seu argumento consiste apenas em dizer que não se interessa pela carne. Nada o impele a comê-la; nem o gosto, nem o cheiro, nem a textura. Poderia ser chamada frigidez gastronômica essa doença, mas, pela doutrina do politicamente correto, ignoramos o lado patológico da situação e mascaramos tudo por trás do multi semântico verbete "gosto".
Um dos pontos em que ambas as Escolas têm intersecção é em uma coisa um tanto quanto polêmica no Brasil do ano passado: soja. Todos elevam alegremente o status desse feijãozinho insosso que deveria apenas ser usado na fabricação de líquidos gordurosamente pegajosos, tal qual Soya. Vegetarianos, porém, (eita, raça!) inventaram de fazer carne de feijão. Falando nesses termos tudo fica meio sem gosto, mas esse é o ponto. Vaca come mato; soja é mato. É aquela antiga história da alemã que vem para nosso país: é só chegar um rapaz de sorriso cativante, corpo moreno e jeitinho de latin lover que já tá no papo. Agora, levar uma senhora brasileira - que lá esteve - e que tenha a mesma beleza e dinheiro da gringa, ah!, isso sim é trabalho demandante de muito investimento.
Felizmente os preceitos antiprotéicos são frágeis, exatamente por causa da soja. Cada qual com seu alimento, pois! Carnívoros com carne, vegetarianos com feijões. Salutares não comem carne por fazer mal à saúde (dizem eles), enquanto cirenaicos não comem por ser ruim (dizem eles), entretanto todos comem a esdrúxula imitação formada por grãos moídos, ou sei lá como. Dá para entender os naturebas, mas... e os que não comem por não querer? Todos dizem, quando pressionados, que carne de soja é "tão boa quanto a carne normal". Ora! Agora lhes pergunto: se é igual, porque gostam de uma, a fake, e desprezam a verdadeira, fonte de todo o prazer assexual? Textura? Bah!
Uns dizem ser mais saudável, outros dizem comer por prazer e ainda alegam ter o mesmo gosto que o naco in natura. Obviamente, um desses grupos está mentindo. Qual? Aposto com bastante convicção nos naturalistas. Eles mentem. Carne de soja não tem o mesmo gosto que carne, já discutimos. Ao dizer "Carne não tem o mesmo gosto que soja" a um cirenaico, este pode responder "sim, prefiro soja". Um naturalista, temendo hipocritamente pelo bem estar de todos, diz que você que "não sabe apreciar boa comida", que soja "é o pináculo do carnivorismo". Mentira. Eles mentem para provar algo, coisa que quem pensa somente na própria bunda não precisa fazer. Cirenaicos pensam apenas no prazer próprio, não ligam se você morrer de infarto ou não.
Voltando à religião predominante no mundo atual, notamos que prazer é tabu. Prazer é pecado, e pecado é tabu. Em termos, prazer não é, por si só, maldoso. Se, por exemplo, você sentir êxtase em rezar, estará regozijando-se de um jeito bem legal aos olhos párocos da cidade. O problema é que isso tem uma certa dificuldade. Todo o resto, incluindo o clímax sexual, é mal visto. Paciência. Cristianismo é velho e, se não extinguir-se, necessitaria de uma boa reforma. Enquadrar o prazer em um lugar a ele devido já seria um bom começo.
Mentira, por outro lado, é sempre chata, mesmo aquelas mais banais. Isso sim, Cristianismamente falando ou não, deve ser pecado. Mentira é... chata. Vegetarianos preocupados com a saúde mentem. Vegetarianos preocupados com o prazer simplesmente têm prazer. Não mentem porque não precisam. Salutares sim. Mentem para provar que carne e feijão são farinha do mesmo saco. Vitupério!

escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 01:42| argumentos.




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