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Domingo, Fevereiro 15, 2004


Só para ninguém esquecer:

É a vida
Cena 1
Cenário: Praça da Sé, seis horas da tarde.
[Câmera pega o cenário por cima, curvando-se e realizando um rasante, parando ao lado dos personagens: Celso e Camila]
[Celso: Magro, estatura mediana, corpo normal, não gordo, mas com uma barriguinha protuberante, Cabelo castanho, não muito curto, cacheado. Ator cogitado: Caco Ciocler]
[Camila: Magra, cintura fina, seios e cintura medianas. Meio loira, cabelo encaracolado um pouco abaixo da cintura. Atriz cogitada: Mariana Ximenes]


Celso: Então, Cá... você ainda não me falou como foi o primeiro ano longe da facul...
Camila: [passa a mão no cabelo] Nem me fala! Estou adorando. Sabe, Celso... poder ter seu dinheiro... ser independente, poder levar quem você quiser para casa, sem seus pais encherem o saco.
Celso: Há! [risada] Isso me faz lembrar o terceiro ano...
Camila: [fica envergonhada] Não...[risos] Não vamos falar disso não! [risadas de cumplicidade, ambos]
Celso: Ora! Mas o que tem de mais? A gente não era tão maduro quanto pensavamos naquela época... estávamos no direito de fazer aquilo tudo.
Camila: É, mas se minha casa não tivesse aquela lixeira de ferro, você não ia conseguir ter se escondido. Meu pai ia ver e... [começa a dar risada] iria te capar!
Celso: [risos]
Camila: [fala rindo] Você lá na rua, todo pelado, e meu pai com uma faca na mão! [risada histérica] Foi muito engraçado.
Celso: [fingindo aborrecimento] Fale por você. Não achei nada engraçado [sucumbe ao riso].
Camila: É... o pouco tempo que a gente ficou... não teve nenhuma trepada "daquelas"... [Celso interrompe].
Celso: Pra falar a verdade não teve trepada nenhuma...
Camila: Não reclama. [rindo] Não teve sexo... mas vou lembrar de você pro resto da minha vida! [risos] "O namorado que fugiu pelado de casa com medo do meu pai!" [mais risos]
Celso: [envergonhado] É. Eu não tive nem chance de mudar isso.
Camila: Como assim?
Celso: Dizem que faço um ótimo oral [risada marota].
Camila: [risos histéricos][sorriso safado] Bom. Só provando. Celso... tenho que ir.
[Beijam-se no rosto].
Celso: [sério] Olha. Desculpa qualquer coisa. Acho que te assustei.
Camila: Relaxa.
[Camila dá as costas para Celso e começa a se afastar. A câmera muda para trás do ator, focalizando a atriz se afastando. Ela para, olha para trás, sem girar o corpo]
Camila: Por falar nisso... vai ter uma festinha no meu apartamento hoje... à meia noite. Dá uma passada lá.
[Câmera volta para Celso]
Celso: [sorri] Tudo bem! Passo sim. E quem mais vai estar lá?
[Close em Camila]
Camila: [sorri maliciosamente][Pausa] ... você.
[Corta]

Cena 2
Cenário: Prédio de Camila, meia noite.
[Câmera focaliza a lua. Corta. Focaliza o prédio. Corta. Focaliza um Fiat Pálio branco estacionando na frente do prédio. Celso sai do carro. Corta. Close em Celso olhando para cima. Ele engole seco e entra no carro. Corta. Focaliza carro arrancando na avenida. Corta. Focaliza fachada do prédio. Câmera sobe, até enquadrar uma janela. A luz acesa projeta na cortina a sombra de duas pessoas fazendo sexo. Corta. Close em Celso, dentro do carro, dirigindo. Semblante de fracassado. Corta. Focaliza carro em alta velocidade em uma avenida. Câmera acompanha parada. Câmera volta para a janela. Gemidos de mulher são ouvidos, bem baixo. Câmera se move até o relógio da igreja, na rua perpendicular ao prédio. Lê-se uma hora da manhã. Fade out. Vinheta da Globo entra]


Locutor: Amanhã se inicia o Horário de verão! Não perca nenhuma oportunidade, acerte seus relógios!

escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 04:48| argumentos.




Domingo, Fevereiro 08, 2004


Primeiramente, queria pedir desculpas por esse lapso entre-postagens. Estive ocupado com um projeto que também envolve escrita, o que desanima a pessoa a escrever para outros lugares - no caso, o Semântica. "Porra, já escrevi três páginas de texto hoje, não vou escrever mais nada". Mais ou menos isso que acontecia comigo, caso também conhecido como vagabundagem. Talvez continue acontecendo, só o tempo dirá. Bom, entre o certo e o quase-lá, preparei um continho leve aqui para vosso deleite. Aproveitem.


Estiloso demais
Alguém já falou para você que todo estilista é guei?
Bom, não sei se todo, em absoluto, um por um, estilista é homo, mas, certa vez, conheci um que era. Homossexual e invejoso.
Na época, ele estava sem parceiro fixo. Não era problema, claro. Era famoso, bonito e sofisticado - estilista, pomba! - sempre existia um ou outro gajo arrastando suas asinhas para ele. E ele, é claro, se aproveitava. Adorava aquela vida, de um homem por noite - por semana, no tempo das vacas magras. Infelizmente, para ele, sempre foi um rapaz sentimental, e, um dia, teve uma crise de identidade.
"Droga, o que estou fazendo?", "como sou um lixo!", "sou quase uma prostituta de luxo!", pensava. Obviamente começou a refutar a idéia de ser tão sexualmente ativo e diversificado para sempre: Queria um namorado. Ele, pela profissão - era um homem da moda de sucesso, não qualquer um - viajava demais, sempre seguindo o circuito fashion mundial. Não podia se dar ao luxo de criar raízes. Isso, portanto, tornou sua caçada um tanto difícil.
Era um rapaz muito invejoso. Se já o era antes dessa crise, depois, então, piorou a um nível exponencial. Não podia ver pessoas felizes que já tentava estragar tudo. Com isso, foi ficando impopular por aí. Principalmente na sua roda de amigos - Ora, se uma pessoa que você considera amiga faz uma palhaçada, das do tipo que ele fazia, você iria continuar a chamando de amigo? Eu não. - Isso foi aumentando e aumentando, até que, ao seu lado, sobrassem apenas um ou outro amigo mais chegado e com mais paciência.

Um desses amigos era Sobral. Era um rapaz bonito também. Uma beleza madura. Homem de barba por fazer, cabelo desarrumado - um must. Todas as mulheres caiam babando em cima dele. Ele, pois, poderia fazer uma enorme festança, cheia de sexo e mulheres e com pouquíssimos homens, talvez apenas ele mesmo, mas não o fazia por um simples motivo: gosto sexual idêntico ao daquelas que tanto gostavam dele. Em outras palavras: bicha. Uma bicha com namorado, Carlos Caramujo.
Caramujo, por sua vez, era uma pessoa simpática, alegre e inteligente. Amava Sobral, e sabia que o sentimento era mútuo. Carlos era bonito de rosto, mas não um primor da beleza. Não era malhado, não "descuidava-se" da barba nem do cabelo - verbo extremamente cretino, visto que cuidados aos cabelos "descuidados" é o que não falta. Também não exibia uma barriga tanquinho. Esse era seu maior problema. Era obsessivo por ter um corpo definido. Tamanha obsessão o levou a uma clínica psiquiátrica. Sobral, coitado, ficou desolado.
Meses depois, sempre visitando Carlos - quando dava: emprego o impedia de vê-lo toda semana - Sobral continuava triste. Não sabia o que fazer. Amava Carlos de coração, e doía assistir seu amor sendo trancafiado em uma instituição para loucos - era o que pensava. Dia desses, o estilista deu uma passada em sua casa.
Conversaram, tudo o mais. O estilista, deus sabe o porquê, estava feliz com a separação dos dois, mas, logicamente, não demonstrava. Até que, por milagre ou ironia do destino, Caramujo entra pela porta, citando Dino Silva Sauro: "Queridô, cheguei!".
Pronto. O sorriso da cara do estilista se foi no momento que a porta abriu. Sua inveja subiu à cabeça, tal qual quando deixamos o leite fervendo e vamos assistir TV. Sempre acontece porcaria.
- Carlos! - Grita, histérico, Sobral.
- Sobral! - Grita, histérico, Carlos.
O estilista só assistiu ambos se abraçarem, se beijarem, et cetera. Coisa não muito legal para quem não é "do meio".
- Então, Sobral, como estou? Acho que agora me aceito como estou! - disse, confiante, levantando a camisa e mostrando a todos a barriga. Meio flácida, por sinal.
- Está lindo, Carlos! Ai... como é bom te ver! - e abraçou o namorado de novo.
- É. - disse o estilista, com inveja na voz - Não está magro, magro, como uma pessoa bonita deve estar. Mas está menos gordo.
Os dois, que estavam se beijando, param na hora.
- Jesus... - advertiu Sobral. Jesus era o nome do estilista.
Carlos, em prantos, correu para o quarto, enquanto os dois assistiam, atônitos, o acontecido. Sobral continuou seu sermão:
- Jesus, você está louco?
- Ora, mas... que que eu fiz? - Perguntou, como se não soubesse.
- Cara... - tentava explicar a situação, nervoso - Eu falei que ele ficava bolado com isso mas, mesmo assim, você continua com isso. Que você tem? É inveja tudo isso, Jesus? Você acha legal estragar a vida dos outros? Droga... bem que o Manoel falou que você estava um chato!
- Mas, Sobral, veja bem... se ele está bom mesmo, não deveria ligar para o que eu falei.
O estilista para de falar. Ouviram um tiro, vindo do quarto em que Caramujo havia se trancado. Cheiro de pólvora em sangue em segundos invadiu a sala em que estavam. Sobral enrijece. Jesus, por outro lado, só levanta a sobrancelha esquerda e solta, meio sem querer, meio inaudível:
- Putz.

escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 04:54| argumentos.




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Alguma dúvida? Reze.