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Domingo, Março 26, 2006
Só pra saber, passei na USP.
E, só para saber, já estou enjoando da faculdade.
Mas mulher de branco é uma coisa linda mesmo. Pena que aquela coisa de "lá só tem gente inteligente" não chega nem perto da verdade. Eu, por exemplo, sou um burro. Eu entendia as coisas porque os professores de cursinho eram bons. Vem um professor sem didática e tenta passar alguma coisa que não entendo nada. Entrei na Med USP e descobri que não sou nenhum fenômeno intelectual. As pessoas acham que a gente entra aqui e começa a se achar. Pode até ser, mas comigo aconteceu o oposto: deixei de me achar bom por ter entrado aqui. Boa sorte ano que vem para quem presta.
Mas e agora? Acabou minha fase, meu anos treinando para vencer o desafio do vestibular. Dois anos para fazer umas vinte horas de prova. E agora? A vida parece estar inteira na sua frente, mas você não tem o que fazer. É como fechar um jogo e ele não acabar, como se desse para continuar jogando - mesmo sem objetivo. Não se ter pais letrados causa alguns estranhamentos na pessoa. Eu, por exemplo, estranho quando algum brasileiro de cinqüenta anos fala inglês. Pra mim, estudo é coisa de gente jovem. E minha escolha profissional vai totalmente de encontro a isso. Pra mim, sotaque nordestino combina com arte, com literatura ou com política. Ouvir "o turnover point da aquaporina" em dialeto sergipano é um choque para mim! Principalmente quando é uma mulher de cinqüenta e um monte de anos. Minha mãe estudou mais que meu pai, mas pra mim ele sempre foi o mais instruído... e agora tem uma mulher com idade para ser mulher do meu pai que sabe mais do que ele, minha mãe e eu juntos! E agora?
Sou uma pessoa muito preconceituosa por falta de vivência. Como se o mundo fosse feito de feudos incomunicáveis. O que sabemos são boatos. Eu conheço o mundo por boatos freudianos, criados por mim. Mentidos por mim. Atravessei agora a muralha da minha cidade e vi que as coisas não eram bem como eu imaginava. Descobri o óbvio de novo: preconceitos caem com instrução. Não acadêmica, mas empírica. Descobri outra coisa também: sonhos de futuro não passam de preconceito. Queremos ser de uma maneira para não sermos de outra, para nos protegermos de um estilo de vida desconhecido. Cursar uma faculdade que cem outras turmas, em cem outros anos cursaram, é propagar um preconceito. É querer ter o poder de dizer "a sua faculdade imitou a minha, pois a minha é mais antiga" ou então "a minha faculdade, mesmo sendo mais nova, está anos luz à frente da sua". Muitas vezes entrar na medicina não é altruísmo, é egocentrismo. E egocentrismo é preconceito.
Talvez a metáfora do feudo não seja a mais interessante. Sou mais alguém que acabou de sair do ninho, lembrando de quando saiu do ovo e se achou forte. Ficou se achando, mas esqueceu de que todo mundo à sua volta também conseguiu quebrar a casca. No cursinho eu achava que sabia tanto... mas agora falta aprender a voar. Ainda.
Não vou, como de costume, ficar poetizando o texto e fazendo referências cruzadas. Vai seco como está, que é só um post para não tirarem o sítio do ar.
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 09:56| argumentos.
Domingo, Janeiro 22, 2006
Curtas:
Voltando ao súbito anti-brasileirismo, bolei um plano: todos os países lusófonos deveriam se unir num só, com capital em Lisboa. Ganharíamos, então, passaportes vermelhos!
Como é ruim não trabalhar. Se eu trabalhasse, Submarino lucraria taaanto... Submarino ou a livraria mais próxima de casa, o que for mais barato. Ler O Estrangeiro no computador com uma traduçãozinha medíocre definitivamente não dá.
Tempo de vacas magras este. Texto grande é muito chato de criar, principalmente com esse calor angolano que faz no sul do Brasil de uma forma geral. Mais um motivo para estarmos todos na Europa. Morrer de frio é muito melhor, e ainda tem o atenuante de demorar mais para apodrecer e cheirar mal.
Mas tem gente que é azarada, mesmo. Brasileiros, por exemplo.
Resultados da USP saindo, mas vão demorar mais que uísque para consumir: dia 8. Acreditem, é uma eternidade.
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 21:40| argumentos.
Sexta-feira, Janeiro 06, 2006
Alguém aqui também se sente mal de vez em quando por ter nascido brasileiro?
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 01:04| argumentos.
Quinta-feira, Julho 28, 2005
Jurei pelo papa e deu no que deu.
Mas é verdade, povo. Um dia sai. Juro por deus.
Alguns perguntam: Por que a demora? Respondo prontamente: tempo. Alguns sabem da minha saga em busca do bisturi sagrado. A outros, porém, talvez tenha escapado o fato de que não passei na USP ano passado por um ponto. Isso dá raiva. Muita. Então, que fazer, para ser como os felizes? Ama! Amei o estudo. E meu companheiro de equipe, Vieira, amou o labor.
Amei... mas tive a cruz, os cravos, a coroa de espinhos, e os simulados que humilham, e os exercícios que inflamam. A ignorância é ótima para se viver bem consigo mesmo, mas péssima para encarar o mundo. Há anos, saindo de uma escola técnica, sem conhecimento de vida nenhum, pensei que seria fácil. Agora, que me sinto mais como um profissional do estudo pré-vestibular, noto como a sabedoria nos traz paranóia, e padeço, como se fosse impossível lograr êxito. Que fazer, para ser bom? Perdoa!
Perdoei... mas sobre o perdão e a prece, tive o opróbrio; e outra vez, sobre a piedade, a injúria. Difícil dar o perdão. Mais difícil ainda dá-lo a si próprio. Conviver com a derrota, dia após dia, e dia após dia tentar superá-la é de uma morbidez incomparável. É dançar com a falha, é brincar com a desgraça. É um desvairo! Que fazer, para o consolo? Esquece!
Mas lembro... Não há meio de olvidar. E as amizades que perdi, no horizonte? E os sonhos que perdi, no ar? E o tempo que perdi, na vida? Não! Em sangue e fel, o coração me escorre: ranjo os dentes, remordo os punhos, rujo em fúria... Não! Que fazer, para a vingança?
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 15:53| argumentos.
Sexta-feira, Junho 10, 2005
.
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 22:32| argumentos.
Terça-feira, Abril 12, 2005
Um dia sai, gente! Juro pelo papa.
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 21:50| argumentos.
Sábado, Março 05, 2005
Hum
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 08:47| argumentos.
Quinta-feira, Setembro 16, 2004
Isso aqui parece meio empoerado. E talvez continue. Mas estamos reformando. Juro. Por deus. Quem quiser saber a hora e o dia da festa de inauguração do Semântica pós-reforma, mande um email para thiagohunter @ yahoo.com.br.
Boas festas.
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 17:59| argumentos.
Quarta-feira, Junho 02, 2004
Olá, caros leitores, depois de muitos aeons, estou aqui novamente. Isso, o Lucas, lembram? Mas desta vez, sem histórias de terror ou splatters. Apenas um registro de bizarros pensamentos que me atormentaram por um instante. Claro, não é um post dos melhore - talvez muitos não entendam minha mensagem. Bom, na falta de inspiração e tempo, foi o melhor que pude fazer.
Livre Arbítrio
Estava andando pelo colégio onde estou concluindo meu estágio de técnico de informática, carregando documentos para lá e para cá, quando me deparei com uma senhora, ou senhorita, vindo em minha direção. Minha mente trabalhou com a velocidade de sempre, e calculei uma reação. Ela era bonita, mas não de uma beleza sensual. Uma beleza simpática. De não se desprezar. E ela me perguntou:
"Por favor, é este o prédio da Física?"
"Não, é aquele."
Pronto, tudo fora do que eu imaginei. Saiu daquela maneira infantil de falar, e todo o charme desejado e treinado havia sido esquecido. Bom, e eu fiquei pensando "da próxima vez eu faço certo". E me lembrei de um ensaio interessante sobre o livre arbítrio, sobre o qual vos falarei nessa postagem.
Dizemos que tomamos nossas próprias decisões, baseados em coisas como nossa vontade, nossa necessidade, nossos caprichos ou outras mil coisas. Isso nos torna mais do que os outros animais que agem apenas por instinto. Que temos o livre arbítrio. Mas vejamos o caso que se sucedeu. A mulher veio em minha direção. Em minha mente, eu guardava a informação sobre como agir com mulheres bonitas, e sobre a localização do prédio da física. Eu sabia disso graças a acontecimentos passados da minha vida. Lógico. E a minha maneira de reagir também tem relação com isso. Eu fui típico, agi de acordo com coisas que me fizeram ser o que eu sou. Minhas decisões, meus modos, as coisas que farei e as opções que eu tomarei... é como se tudo já estivesse pré determinado. Eu não sei qual será minha próxima dúvida, mas com certeza minha decisão será baseada em coisa de meu passado. Desde que nasci, é assim. E quando nasci - quando tinha um passado conscientemente desprezível - comecei a ser influenciado pelos meus pais, parentes, pelo mundo a minha volta. Coisas que não eram internas e sim externas, que me levaram aos poucos a chegar onde estou, falando sobre como a influência de meu próprio indivíduo nas minhas decisões pode ser considerada desprezível.
O homem usa agasalhos porque sente frio. O homem não anda despido porque foi influenciado a pensar assim. O homem muitas vezes faz o que faz sem parar para ponderar sobre isso. Por exemplo as pessoas religiosas, que se param para pensar, não é para saber se o que fazem vale a pena, mas sim para procurar um motivo para valer. Se não encontrarem, vai qualquer desculpa, o importante é valer. Para não serem excluídos do grupo, talvez. Isso não é exclusivo do ser humano, querer estar em grupo. E uma pessoa que se preocupa com a beleza para atrair uma outra também não foge a natureza. A busca por prazer é natural. Então podemos dizer que se falamos, se desenvolvemos teorias, se nos vestimos, se somos o que somos, se destruímos o planeta Terra e lamentamos - mesmo sem parar a destruição - é porque isso é o que dita o nosso instinto. O livre arbítrio é uma mentira. Reagimos de acordo com coisas externas que são interpretadas pelos nossos cérebros e respondidas pelas nossas ações, como se fossemos computadores dotados de genes que evoluem através da seleção das espécies. Somos mais lixo no ciclo da natureza. E talvez essa humana necessidade de se dizer criação dos deuses, o centro do universo, o núcleo da existência seja parte do nosso instinto também. No fim, somos apenas uns primatas orgulhosos. Só isso.
Mas há quem diga: "Se não podemos decidir, se o futuro já está determinado, se o livre arbítrio não existe, não há graça em viver!"
E eu discordo. Sentir as emoções que nós podemos sentir, passar os momentos que nós podemos passar, degustar o sabor de uma pizza ou dos lábios de uma donzela - tudo isso é tão bom, que eu não me importo de ter ou não ter o livre arbítrio.
E, claro, a vida é uma rosa de espinhos imensos, e as dores que sentimos também fazem parte; o sofrimento nos acrescenta influências, nos melhora, ou não. Mas, enfim: isso importa?
escrito por LUCAS VIEIRA às 11:43| argumentos.
Sábado, Maio 15, 2004
A Glória
Morte, na maioria dos casos, significa fim.
Fim de uma vida. Fim de uma relação. Fim de uma história.
O ser humano, ambicioso que é, odeia as duas palavras. Odeia o término de algo, assim como detesta as revelações que todo o processo trás. O que a maioria não vê, entretanto - só percebe, forçosamente, diga-se, após anos, para única e exclusivamente aplacar a própria alma, para consolo -, é que o fim é intensamente importante. Todo fim traz um começo, indistintamente. A diferença está nele ser melhor, pior, ou simplesmente diferente. Na maioria das vezes enegrece.
Continuações iguais em beleza, forma, sentimento são triviais demais. Não ligamos. "Acabou a água do filtro, mãe", "Onde coloquei as aspirinas?", ad infinitum. Ninguém liga. Fazem bem.
A discussão torna-se pedante, arrastada e de mau gosto quando tentamos imaginar o porquê de um fim que só trouxe tristeza. Desnecessário dizer, colegas, que a morte de um conviva se encaixa nessa acepção. Uma amizade que vai para sempre significa o fim de conversas, a cessão de brincadeiras, a falta de alegria; o fim, enfim. Toda uma vida a dois fica, então, confinada a apenas recordações enevoadas, sépias, como uma película rasgada exposta às agruras do porão. Amizades vêm e voltam até que, na sua hora, aquele rosto tão quisto se torna apenas um pedaço de nada. Quando você for, com sorte alguém tentará lembrar do seu rosto. O ciclo, a partir daí, se torna sangrentamente auto-sustentável. Infelizmente nós, prepotentes e arrogantes, podemos apenas assistir, passivos, a tudo. Podemos isso e chorar.
Algumas vezes, porém, alguém vai sem que fiquemos tristes. Um inimigo, um desconhecido ou um já conhecido ente querido.
Românticos disseram que a vida é uma prisão, e a morte seria sua chave. Em casos e outros, estavam certos. Há vezes em que a vida enche o saco. Nessas situações, não há nada mais louvável lutar ferrenhamente. E depois, óbvio, dar-se por vencido e fechar os olhos. Para sempre. Glorioso.
Mártires são assim. Heróis são assim. Olhe para trás. Como diz o poeta, "Todos meus heróis falharam. Agora estão mortos e enterrados". Nada mais certo. Ter herói sem conhecê-lo é ter um amigo imaginário, só não traz estigma. Heróis nacionais são uma fraude. Olhe para trás, não se desvie, porém. Veja heróis na sua família. Encontre-os. Esses são genuínos. Todos laudáveis. Todos falhos. Todos morreram com orgulho. Mereceram morrer: não por mediocridade, mas por jus. Todos precisamos descansar um dia.
Onze e meia de hoje recebi um telefonema. Meu primo. Visava meu pai. Entreguei o telefone, casa escura. Três palavras trocadas, pai desligou o aparelho e desatou as lágrimas.
Minha avó morreu.
Quando eu era jovem, na base dos dois, três anos, minha mãe trabalhava. Quem convivia comigo era justamente ela, mãe do meu pai. Minha infância foi separada entre "casa da vó" e "casa da cama", já que só chegava em casa à noite, para dormir. Além de senhora do meu pai, essa mulher foi minha senhora. Foi minha mãe. Foi meu ídolo, meu herói. Digo de boca cheia, sempre que posso, que a maioria do meu humor e da minha personalidade foi devido a essa. Meu crivo, minha sensatez, meu desgosto pela moda, meu senso crítico, minha rabugice. Devo tudo a ela.
Foi a mais forte das pessoas. Até ano passado, quando meu panteão de avós era completo, jurava que essa pessoa seria a última a me deixar. Foi a primeira.
Morreu, mas não de graça.
Há sete anos, em um exame, descobriram nela um tumor. Uterino. Câncer. Um ano de batalha e mau humor. Desaparecera a bolota. Médico preofetizou que, se em cinco anos não ressurgisse, tudo estaria bem. Quatro anos se passaram. A tireóde apitou, em desespero. Câncer.
Operações e tratamentos e sacrifícios feitos, mais que em todo o período, a tireóide é removida. Complicação cirúrgica, minha vó ostentava sem opróbio uma ferida imensa no pescoço. Ferida essa que não só aumentava, como cavava mais e mais na pele dela. Até mesmo eu, nojentista tarimbado, amante do insólito e do inquietante, tremi ao ver sua traquéia à mostra.
Meu pai é representante de vendas autônomo. Como tal, vai sempre que pode à matriz da empresa, localizada em São Paulo, como o apartamento de sua mãe. De uns tempos para cá a doença dela teve um aumento de violência, e eu - assim como todos da família - estava preocupado. Sou um pouco preguiçoso, e no dia em que fui visitá-la estava com sono, confesso, mas abençôo a hora em que me levantei da cama e espreguicei. Foi a última vez.
Visão aterradora. Minha vó magra, maltrapilha, sem voz e com sonda. E o olhar. Era um olhar auto-piedoso e triste, como se ela estivesse sendo humilhada. Como se nós, lá, sadios, estivéssemos humilhando-na. Naquele fatídico dia, tive certeza de uma coisa: ela devia morrer. Sem eufemismo. Desejei sua morte. A vida já não valia a pena, para ela.
Ao me despedir, a fiz prometer que me veria na faculdade, e que não iria embora antes. Ela quebrou a promessa.
Faz tempo já, mas uma vez prometi a ela que não choraria no dia último e definitivo.
Vó querida, você falhou comigo. Mantenho minha promessa, mas não tenho certeza se posso cumpri-la.
A Nair de Carvalho (*1931 - +2004)
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 00:50| argumentos.
Quinta-feira, Maio 13, 2004
Olha, não tá fácil para ninguém, é verdade. Não tenho certeza absoluta, mas acho que estou no meio de uma crise criativa. Tá complicado.
Entretanto, fiquei com uma dúvida:
Você, bom bebedor que é, ao caminhar à noite na rua, em uma esquina, se visse uma garrafa de Caninha 51 - fechada, absolutamente sem possibilidade de terem mijado nela - cercada de velas, um franguinho já comido por vira-latas e farofinha esperta pra lá e pra cá, pegaria? Se não, por quê?
Pergunta idiota, não? Pois é. Isso é o melhor que consegui fazer. Dêem desconto.
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 01:33| argumentos.
Domingo, Abril 25, 2004
Uni-vos
Onde está nossa juventude?
Não com a palavra "nossa" no sentido particular, pessoal, mas sim em âmbito nacional. Pois respondo: nossa juventude está morta.
Antigamente, na época que nossos trisavôs davam umas enfiadas nas mucamas enquanto as esposas tricotavam, podia-se ver dois extremos da subjugação social. De um lado os escravos, do outro lado os jovens esclarecidos. No meio estavam os pais desses e donos daqueles, os temidos adultos na crise da meia idade. Como "mais ou menos" não é resposta que se preze, atenhamo-nos nos pontos finais da barra.
Estavam lá os negros, arrancados de uma terra cheia de mato e leão e tribo inimiga e jogados em um lugar cheio de mato, capatazes e com o chefe da tribo inimiga dormindo ao lado. Grande merda de troca. Em vez de caçar para comer, o trabalho. Se não corressem, na Mãe África, seus fêmures seriam usados para palitar o dente de algum tigre. Aqui, caso tivessem preguiça, levariam umas boas bordoadas de tiras de couro cru. Trocaram gato por lebre e de brinde ganharam um cruzeiro no Atlântico. Justo. Se não viessem para cá, alguma praga - ou algum inglês, que no final é a mesma coisa - dizimaria tudo mesmo, melhor que tenham vindo.
Justo ou não, o fato é que comiam. Custavam caro, e nenhum senhor que honrasse as calças que vestia ao menos pensaria em deixar um desses sem comer. Ora! O bom é que trabalhem mesmo. Em alguma parte da história do Brasil escravocrata deve ter havido um dia em que a população negra superou a branca. Quantos capatazes tinham para cada dez negros? Acho que um ou dois, no máximo. Uma rebelião geral viria a calhar. E olha que insurreição pequena e fuga era o que mais acontecia - Dizem por aí que foram os romanos que inventaram a favela. Não poderiam estar mais errados: a favela moderna é uma criação genuinamente brasileira! Antes dos guetos ingleses, antes dos aglomerados hi-tech japoneses, Zumbi e a nação do ébano já barbarizavam pelo interior brasileiro! -, mas a massa escrava nunca se uniu realmente. Talvez nem meios dispunham. O pulo do gato, entretanto, não está em nada disso. Alguns gostavam de trabalhar. Ganhavam comida, lugar para viver e ainda comiam as moreninhas, viuvinhas e Cecílias das casas-grandes. Trabalhavam, porque não tinham para onde ir. Não tinham idéias. Não tinham futuro.
Do outro lado da parede, estavam nossos queridos bisavôs, filhos dos donos. Não ligavam a mínima para a cana de açúcar. Queriam mais era estudar fora e foder alguma francesa. De fato, os que podiam faziam isso com o respaldo mais que dado dos pais. "Vais encontrar o mundo", diziam os pais, "coragem para a luta. Agarre alguma francesa". E eles iam. Iam, comiam, liam, estudavam, conheciam a livrarada daqueles alemães cheios de furúnculos na bunda e ficavam cheios de vontade de quebrar tudo. Voltavam pro Brasil, diploma na mão, e badernavam. O legal de ser brasileiro é que, se você for branco e sua família for católica, é quase certo de que algum dos seus parentes era um conspirador. Conspirar, aliás, depois do churrasco, é a melhor invenção da humanidade. Conspirar no meio de uma churrascada, então, meudeusdocéu!
Uma outra parte da pirâmide social que quase sempre é ou esquecida, ou ignorada, são os militares. Esses, sim, são uns desgraçados. Não podem ver um mirim qualquer no governo que já tratam de usurpar a cadeira. Incrível. Aconteceu com o Pedrão Dois, com o Jango e com todos os americanos sempre, visto que lá a presidência é um cargo militar. Vai entender. Uma coisa, entretanto, é certa: militares são uns miseráveis. Inventaram a república para eles governarem (Dá-lhe Deô!), dão aos civis, tomam de novo o poder (heil Castelo!) e ainda querem que todo mundo seja militar (Bush & cia).
Se os militares fazem o poder, os jovens, que não prestam para iniciar as coisas, se saem muito bem roubando. Os militares faziam dinheiro aparecer na privada de casa, mas não deixavam ninguém ler um jornaleco em paz. Censura, por sinal, é a maior invenção da humanidade, perdendo só para os puteiros (esses sim, creditamos aos romanos). Censura consegue nos fazer pensar que tudo está bem quando um assassino serial mata todos da sua rua que moram em casas de números ímpares e você mora no 36 Fundos. Vivo você fica, mas... e os outros? Censura é ótima por responder essa pergunta do jeito mais animal possível: "que outros?"
Aí que a juventude daquela época entra. Brigaram, subverteram, choraram, sofreram, criaram códigos, quebraram barreiras, cutucaram o governo, resistiram à tortura. Jovens espertos como eu e como você.
Mas e agora, onde está nossa juventude?
É chocante, mas a verdade é que existe um misto de conspiração, censura e comodismo barrando a resposta dessa pergunta. Estamos mais espertos do que nunca. Aprendemos coisas de faculdade de Engenharia de 1969 no terceiro colegial. Temos internet. Pesquisa a um clique. Antigamente, para citar algum autor precisava-se ter muita moral. Teria de ler o livro, entender, guardar e lembrar de falar, na situação pertinente. Agora, com a rede, até eu cito meio mundo em conversa de boteco. Enrico Fermi uma vez perguntou "onde eles estão?" Inteligência alienígena? Sim. Disseram que estavam na Hungria. Mas, onde eles estão? Ou melhor, onde estamos? O mundo está uma bagunça, e quem supostamente o mudaria? A gente? Se somos, onde estamos nós, afinal?
Pois estamos na senzala. Eles nos dão comida, roupa, sapato, conexão com o exterior e jocosamente repetem a recomendação. "Vais descobrir o mundo, coragem para a luta". Que luta? Não lutamos. Não querem nem que comamos as francesas. "Coma a vizinha. Ir para o exterior agora é complicado, filho. Terrorismo e tal. Nosso bairro tem vigilância, é mais seguro comer a vizinha. E coragem para a luta". Não obstante, essa última frase não significa absolutamente nada. É citação vazia, quase igual às minhas, no balcão do botequim. No máximo significa "se forme e ganhe dinheiro, mané, porque eu morro e você fica." O mundo está estagnado, mas isso é porque não fazemos nada. Estudamos, lemos Proust e Marx, comemos a vizinha e morremos. Escravos trabalhavam, comiam, dormiam e faziam sexo. E ainda achamos que as vidas deles que eram medíocres.
Poder nós temos. Capacidade nós temos. O que falta é visão. Sabemos que está errado, mas não temos muita certeza do que exatamente. Eles, enquanto procuramos respostas, riem e contam o dinheiro da venda de mais um M. Officer. Se continuar desse jeito, é muito provável que, ao perguntarem "onde está a juventude", nós, no alto de nossa torre de marfim, futilidades e planos secos para o futuro, respondamos, em coro: que juventude?
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 22:46| argumentos.
Segunda-feira, Abril 19, 2004
Gente, tem um metrossexual na minha sala!
Sim, um metrossexual! Uau!
Sério, é muito... não sei a palavra. É indizível. É incrível! E quando Hitler queria matar todos os viados, o pessoal fica dizendo que é preconceito. Não tenho nada contra gueis, mas homens que são homens mas parecem gueis é sacanagem. É como mascarar um produto. Colocar vinte bolachas em um pacote que cabe vinte e cinco é ficha perto disso.
A criatura parece um cilindro com seios. Ia fazer uma figura no 3dsmax, para mostrar-vos toda a angústia em imagens e não palavras - coisa que me falta agora. É inimaginável a vergonha, temor e sensação de que "tem alguma coisa errada" de ter um ser da raça do Beckham (ou Bekham, o diabo que o carregue) por perto, vigiando matutamente, pensando na próxima combinação de roupa e desgrelho de cabelo. Dou um cubo de carne a quem adivinhar a profissão que tal figura quer exercer. Chutem nos comentários, minha prezada meia dezena de leitores, pois minha caixa de entrada está lotada.
Como metrossexualismo é uma coisa muito cativante - só assistir a um capítulo qualquer do Queer Eye for a Straight Guy, ou coisa que valha a piada -, preparei um interativo, onde você, caro leitor, pode viver um dia como metrossexual, fazendo aquilo que ocupa quase três terços de seu cérebro: "viver".
Clicai aqui e jogai VIDA DE METROSSEXUAL.
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 00:11| argumentos.
Sábado, Abril 10, 2004
Bom... pensei que o weblog estivesse menos atualizado. Coisa de uma semana e meia, quando na verdade é apenas uma semana, redonda. Escrevi isso quinta. Está grande, está carregado, mas é legal. Eu achei. Três páginas. Ficou gostosinho.
Bom... mudei de cidade e de casa. É para, dia desses, ter uma churrascada de inauguração. Se você mora em São José, lê o Semântica e quer puxar o saco dos articulistas pessoalmente, ou apenas jogar conversa fora, conhecer gente nova e tomar uma, manda um email para mim com o motivo de querer vir para cá e seu nome completo. Não vale estupradores e assassinos.
O Papel
- Toma, filho. Preenche e paga o Carlo.
E o menino pegou o papelote. Estava atrasado para a aula de matemática. O pai, simpático que era, foi pescar com os amigos e esqueceu que deixara o rebento sem condição de ir à escola sozinho.
- Tá bom, pai. Tchau.
Deu a volta no carro - estava no meio da rua, conversando com seu tutor pela janela - e se apressou para passar pela portaria do local.
- Filho! - Grita o velho, desesperado e confuso.
E o garoto parou e volveu meia volta. Abriu os braços, incrédulo, e foi andando até o carro, pagando na mesma moeda:
- Que é, porra?
- Vem cá.
Ele olha para os céus, avermelhado com o alvorecer, rubro como a ira divina, caída em cima dessa pobre alma que deseja apenas saber quanto é dois mais dois, diabo! Putz, o que é?
- Vem cá, cacete! - o barbudo mandou, fazendo movimentos desregulados e amplos com o braço desaparafusado do volante. O moleque, sem alternativa, encarou seu futuro diabólico de ignorância lógica e numérica e foi até lá, mirando azedo o pára-brisa, tentando intimar seu pai a sair do carro e acabar com a palhaçada no braço, agora mesmo, lá mesmo. Com uma levantada brusca e sutil da cabeça, pesca a resposta:
- Diz.
- Ó... - tentando encaixar pensamentos - se o Carlo não quiser deixar você voltar no carro, liga para mim vir te buscar.
As palavras entraram como ouriços pelos ouvidos dele. Já não bastava o cárcere que seu pai causou com a matemática, agora apunhalava a língua pátria. Não pensou muito em responder, até porque o pai não tinha feito exatamente uma questão. Só frisou o óbvio, obviamente.
- Bah. Tá bom, pai. Tchau. - exalou, pronóstico, já andando com a mão na bunda procurando a carteira.
- Liga para casa! Não liga no celular porque ele não recebe a cobrar! - Emendou o pai, só de passagem. O menino, com o crachá já na mão, mostrando para o porteiro, bufou, desacreditado.
- Tá bom, pai. Tchau. - reiterou; de soslaio mirava o carro.
- E boa aula! - apeteceu o senhor.
- Tá bom, pai. Tchau. - disse, de costas, deixando clara com a repetição seu desejo não de boa viagem, mas de rápida partida. Entrou. Seu pai, do lado de fora, enfiou o pé no acelerador e seguiu seu destino.
Chegou à aula e sentou em qualquer lugar. Após a estafa habitual de quem entra correndo, tornou os ouvidos à dialética do professor. "... Taham, para quem nunca leu, foi um grande professor de matemática. Apesar do nome, o rapaz era brasileiro. Ele foi esperto. Pensou: 'vou escrever e assinar com um nome esquisitíssimo para todo mundo pensar que sou de outro país e comprar e ler meu livro'. Fez isso e todo mundo caiu. Seu livro mais famoso, O Homem que calculava, está cheio de probleminhas interessantes. Recomendo. Bom... dito isso, entramos agora na parte de divisão. Olhem..." - fez um rabisco na lousa, prontamente copiado por todos da sala - "... matematicamente é impossível dividir infinito por dois e pegar a raiz como inteiro qualquer, mas, em questões mundanas, conseguimos dar um jeitinho, e é aí que o Malba entra. Quem leu sabe a resposta, e para eles peço para não contar à ninguém até amanhã. Para casa: Um homem foi condenado à prisão perpétua. Após uma forte discussão da corte, o juiz voltou atrás e dividiu a pena do coitado pela metade. Quanto tempo o réu fica na cadeia? Amanhã vocês me dão a resposta ..."
A atenção do garoto pela aula esfumaçou-se. Começou a desenhar algumas bolas no caderno. Riscou um oito deitado e o cortou ao meio. O traçado do oito é infinito, abstraiu, e o do zero, das duas bolas resultantes, também. Criou uma bola e a dividiu. A bola era interminável, mas os dois arcos restantes terminam tão logo a curva acaba. Incoerente, concluiu.
Seus pensamentos cessaram ao toque do sinal de intervalo. Ainda embevecido, o garoto levantou a cabeça para tentar sondar o ambiente. O professor, ciente de já ter feito sua parte, caminhava agora para o Financeiro. Era gordo, e, de fora, tinha-se a impressão de ele ser uma rolha da 4-3a. Abriu a porta e saiu correndo, voando como cortiça voa em reveillon, seguido por uma leva de infantes, ávidos por ar fresco e conhecimento não acadêmico, se jogando e espalhando como espuma de champanha. O garoto era a parte malograda da bebida. Sentado, recebeu na omoplata direita o suave impacto de mão esquerda feminina.
- Ei, você! Tudo bem? Por que não foi sentar lá atrás?
Ele levantou o rosto com pesar, como se a face da menina fosse um sol ardente, impossível de se olhar. Cerrou as pálpebras e subiu as sobrancelhas.
- Oi... é que; sei lá; sentei aqui para ficar mais rápido. Queria assistir à aula, se fosse até o fundo ia perder mais do que já perdi.
Ela, com a respiração pressionada, repeliu o riso.
- Bobo. - e mudou de assunto - Olha... nós vamos para a Lan House depois da aula. Quer ir?
Piranha. Já devia ter dado para todos da sala. Devia ter dado para todos da escola, já. Ele não. Estava meio confuso, meio com sono, não queria discutir.
- Claro. - mudou o tom de voz - Viu o Carlo por aí?
Ela, quase fora da sala, lacônica, respondeu:
- Não. Faltou.
Menos mal, pensou. Coisa a menos para mim - maldita osmose ¿, para eu fazer. O sinal voltou a tocar.
Qual a metade de infinito? Verbo? Estrelas são infinitas? Léxico? Melhor dizendo: existem infinitas estrelas? Sim, adjetivo flexiona de acordo com o substantivo; Não, advérbio não. Quão grande é o infinito, e qual o tamanho das suas partes? O Sol é dez vezes maior que a terra? Não, mais. Vinte? Não, mais. Cem? Não, mais.
Infinito?
Não. Mais.
O sinal tocou. A vibração do martelo que bate no gongo passou para a petizada, que correu, em êxtase, para fora e para casa. Um rapaz se aproximou do garoto.
- Ei, mano. Vamos?
Alheio completamente, respondeu, breve, que sim. Vamos.
E foram. No caminho, silencioso como as árvores que faziam sombra e cenário, passavam os três e ele. Dois meninos, a menina. E ele. Conversavam futilidades e um deles olhava insistentemente para a garota. Ela se fazia de rogada e rebolava mais e mais. Era bonita. E puta. Um dos amigos perguntou, incisivo:
- Por que você chegou atrasado?
Ele piscou os olhos repetidas vezes, procurando a resposta na cabeça, e respingou, meio tonto:
- Ah, longa história. Meu pai foi pescar e esqueceu de ir em casa me buscar. Depois fez hora na entrada. - seu ânimo aumentou. Sua cadência de fala melhorou um pouco, e começou a devanear - Ele estava meio bêbado, chegou até a me dar um cheque em branco assinado, só para mim pagar o Carlo. E ficou falando umas besteiras, e não sabia o que falava. Tava foda.
- Olha o Tarzan, pessoal. - observou a garota - "Para mim fazer", cara? Não era você que enchia tanto o saco dos outros por causa disso?
- Ah... é que hoje eu estou meio dopado - desculpou-se, sem graça.
- O cheque está com você ainda? - indagou um colega, curioso.
- Lógico. - conciso, matou.
- Opa! Demorou então para pagar o corujão para a gente! - brincou um quarto.
- Rá, rá, rá. - riu-se, irônico, o garoto. Mudou de frente - Alguém sabe quanto é metade de infinito?
- Sei - disse rápido um dos caras ¿, é a fila que vamos ter que enfrentar na Lan House se a gente continuar nesse passo.
Riram risos falsos e correram. Chegaram.
O menino, lembrando das palavras do pai, pediu à amiga, esbaforido da disparada:
- Guarda uma cadeira para mim. Vou ligar para o meu pai. Ele pediu para ligar.
Ligou. A cobrar, para casa.
- Alô? Pai, eu vou voltar depois. Estou com uns amigos aqui, tá? - avisou, sem pausa.
- Alô? - perguntou uma voz de comediante sabatino.
- Ouviu?
- Tá bom. Tchau. - decretou, com sono, e desligou.
Bom. Avisei, ao menos.
- Ei! Vai vir ou não? - chamaram. Ele colocou o telefone público no gancho e correu para seu lugar. No meio do caminho, entretanto, lembrou-se de súbito do papel que seu pai havia lhe dado. Afundou a mão no bolso e achou o filete. Andou, lendo o dinheiro, até o lixo. Estava assinado, com assinatura bem pomposa. Intrigou-se com o fato de não ter notado seu pai rubricá-lo em momento algum. Será que ele andava com um cheque assinado no bolso? Improvável. Olhou para a face do cheque, envolto pelo desfocado fundo redondo da boca do lixo vazio. Imaginou, na guia do valor, um oito deitado. Esse cheque poderia valer dez reais. Poderia valer vinte. Cem. Poderia valer mais, enfim; poderia valer infinito. Sorriu. Rasgou o papel ao meio. Levantou as mãos à altura dos olhos. Estava segurando duas metades de infinito. Não valem nada, findou. Resolvera o mistério, imprimindo nas notas com os gulosos e argutos olhos um retumbante ponto final à dúbia contenda.
Sorriu, vitorioso. Picou o cheque em branco infinitas vezes e foi jogar.
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 19:56| argumentos.
Sábado, Abril 03, 2004
Tancredo!
Nossa mídia é foda.
É de se espantar como nós, brasileiros pensantes, conseguimos viver, alguns com mais, outros com menos, e assistir tevê ao mesmo tempo.
Cabo ou satélite são mesmo os melhores amigos do homem. Não por trazer entretenimento e informação de primeira, mas por nos dar ao menos uma alternativa à Globo ou SBT ou Record. SBT é um caso à parte, já que o Silvio Santos, o judeu mais simpático que Israel já concebeu, não se interessa muito por jornalismo. Na Record, mesmo com todo o crédito do mundo, ninguém assiste ao Bóris Casoy. Além disso, os dirigentes recordianos são adeptos à vertente "ignora que viverás melhor" cristã e, mais especificamente, evangélica. A Globo, por sua vez, tem predominância católica. Como o Brasil por si só já tem oitenta ou setenta porcento partidários do Vaticano, a mídia Global é a que mais se parece com o que gostaríamos de ver: verdade, transparência, bom senso e amor à família. Também gostamos da Ana Paula Padrão, mas, óbvio, pela sua personalidade, garra e credibilidade, e não pelo cabelo sedoso ou corpo esguio.
Algo que me deixa extremamente triste, e, supostamente, deveria deixar a todos um artrópode hematócito atrás do lóbulo auricular é o fato da mídia controlar nossa vida. Quantos de vocês têm ou teve uma Calói? Quantos de vocês já tomaram MüK? Aquela crosta praticamente impermeável de chocolate joga muito Nescau no chinelo. Aliás, até Toddy é melhor que Nescau. E ovo de páscoa? Nestlé, não? Pois tenho certeza que sua vizinha faz melhor. Tele-sexo? A voz da sua vizinha é bem mais gostosa. Voyeurismo? Pois a secretária do seu chefe é bem mais gostosa que a Juliana. Você só não nota isso porque fica vendo tevê, diabo. O mais triste é quando a televisão, que deveria apenas informar e divertir, entra no ramo da politicagem. Mídia é o ópio do povo, e nos últimos tempos vêm em uma embalagem com os escritos "Vote Carlão".
Quem não se lembra do nosso grande, alto e gostoso ex-presidente Collor de Mello, nome já coroado desde o batismo com a faixa bicromática presidencial, primeiro ele verde, segundo ele amarelo (a letra, não o pronome)? Nossa colega de jornalismo nota dez, famoso grupo Globo - grupo que, por sinal, hospeda esse texto que vos escrevo -, foi como um pai, como Sarney foi para Roseana, nas eleições. É quase correto dizer que a Globo que deu o título de Excelentíssimo para o Collor. Não digo que seja isso uma coisa feia de se fazer; ninguém queria o Lula lá, principalmente naquela época que ele não tinha nenhum fiapo branco na barba e estava com a masculidade à flor da pele. Essa tendenciosidade foi notada e, para jogar os noves fora, a campanha de impeachment foi também endossada pela empresa. Imparcialidade é neutralidade. Levando em conta que os fins justificam os meios e que a Globo começou ajudando e terminou fodendo, um e menos um é igual a zero e a neutralidade fica aí estabelecida em um enfoque geral. Papai dizia que foi tudo um engodo, e Collor não era mais que um laranja. Com o peso da idade, também comecei a ter certa convicção disso. Papai sempre dizia que Pedro, o fraterno irmão do nosso exilado do poder, que era o sanguessuga filho da puta. Eu digo que, agora, isso já não faz diferença nenhuma.
O que me aflige mais, entretanto, é algo mais contemporâneo. Vocês, por acaso, ouviram falar do Maluf ano passado? Eu não. E ano retrasado? Com certeza. Esse ano, como presente ano par pleiteante, não poderia ser diferente. Nhô Maluf e seu negrinho fugidio Pitta - agora no Quilombo de PTN atacam novamente. Veja não disse nada, por enquanto. Época já deu a capa. Época é da Globo. Aposto e ganho que já já o JN está falando mal de outro dos semitas com os sorrisos mais cativantes do Brasil. Se é que já não falou.
Sim, sou malufista, e acho - mesmo se fosse com qualquer outro pré-candidato - essa perseguição uma sacanagem. Tenho dezoito, e sonhava em fazer meu título na cidade de São Paulo, só para me juntar às legiões do líder populista mais rico do país, mas a Globo, com essa política antipolítica, impediu Maluf de candidatar-se e meu posterior voto a ele. Não só por ser sequaz ao Paulo fico mal. O buraco é mais embaixo, e tenho certeza que muitos compartilham do meu ponto de vista. Não é a não candidatura do Maluf que me deixa chateado. Isso me entristece: saber que meu voto valerá menos - ou não valerá nada - por causa de pessoas que assistem ao Big Brother e tem medo de textos com mais de uma página. É lamentável.
Observação: Vocês viram a capa da Exame que vigora? O Palocci deixou de ser ministro e virou prostituta? A Exame parou de editar textos corporativos e se transformou em uma concorrente da Playboy? Cacete, onde esse mundo vai parar? E, by the way, Heil Waldomiro!
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 00:07| argumentos.
Quarta-feira, Março 31, 2004
O enigma do sorvete
Peque.
Imagine que você possa morrer duas vezes. Morre uma, volta e morre de novo, para sempre.
Agora imagine que, uma hora antes de morrer, você - já almoçado - tenha tido uma vontade avassaladora de tomar sorvete. Não tomou. É pecado. Morreu com vontade.
Morte chata.
Volta à vida. Já sabendo que morrer sem sorvete é uma merda, você toma o sorvete. Morre de novo. Gosto de morango ainda é sentido pelas papilas gustativas sobreviventes por um tempo. Morreu feliz.
Você não sabe como é depois da segunda morte, e nem pode voltar a viver agora. Mas tomou o sorvete. Aproveitou o tempo.
Não precisamos saber o que tem do outro lado da vida. A morte é a constante.
Tome o sorvete. Peque. Se for o caso de você achar o sorveteiro do outro lado, pague-o. A satisfação do sorvete vale o investimento. Se não achar o sorveteiro, o sorvete saiu de graça.
Peque.
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 14:09| argumentos.
Terça-feira, Março 23, 2004
Olá pessoal, sentiram saudades? Eu, o LUCAS, sim. Sem seus comentários em meus escritos, meus dias de trabalho (um saco!) se tornam tristes e amargos. Mas isso há de cessar, pois agora vos apresento um conto baseado em fatos reais (pelo menos me disseram que era verdade). Ao contrário do meu último conto, este é menos sério, e não tem nada para acrescentar a ninguém. Aí vai.
---The Waltinsaga---
> Prólogo no Crepúsculo
Waltinho era filho único de uma família muito pobre. O senhor Jiló e a dona Maria o amavam muito, pois ela não poderia mais ter filhos. Ele nunca teve muitos talentos, ao contrário do seu grande amigo Josefino, vizinho, que tinha muitos irmãos, todos fortes e inteligentes, uma linda irmã chamada Josyvânia e, mesmo assim, se destacava sempre. Era o imbatível nas peladas; o campeão nas tretas; amigo dos traficantes e dos policiais; aluno número um, com bolsa em um cólegio particular modelo. Sempre tinha as melhores namoradas, conseguia todas no baile funk, mas, para sua capacidade privilegiada, tinha um sonho inusitado: se tornar pedreiro, um grande artista cuja aquarela teria as cores tijolo, bloco, cimento, areia e pedra e os pincéis seriam de metal. E claro, na sua sombra, o irmão de consideração Waltinho, que como um peixe-piloto (caso não seja o peixe piloto, favor me avisarem, e eu corregirei) só se aproveitava da carne desprezada pelo tubarão Josefino, seguia o mesmo caminho, e tornava para si ser pedreiro também uma grande meta - até porque nunca tinha tido uma grande meta. Na verdade, tinha.
> Vida de Bosta
Desde a primeira namorada, a linda Rutileide (que não era linda, era a Grande Deusa das Bagas), não houve mulher que encarasse o mirrado e feioso Walter e não deixasse bem claro (muito mesmo) que elas só estavam com ele para ficar perto do Josefino.
Uma vez, após os dois amigos ficarem brincado por horas de Pouerrangis na casa do Walter, quando ao longe Josefino acenava indo embora, os pais de Waltinho disseram coisas como: "A dona Marinalva teve sorte... seria tão bom um irmão assim para o Walter"...
O garoto, com seus seis anos de idade, chorou muito nessa noite. Quando a dona Maria viu, não deu outra. Uma sequência de sopapos no melhor estilo Rocky Balboa para fazer o moleque "relaxar".
Na escola, as melhores notas eram de Josefino, as piores (da escola e da história de alguns professores) eram as de Waltinho. Sim. Walter tinha uma meta. Ser um grande pedreiro. Melhor que todos. Melhor que... Josefino.
> A Tristeza Do Jeca
O primeiro dia de serviço chegou. O mestre de obras, Porco Maia, deu aos dois uma simples missão. Preparar cimento. Foi exatamente o que Waltinho fez. Rápido. Terminou primeiro que Josefino e encostou em uma parede, sorridente. Sem querer, dormiu (pois durante a noite ficou rezando e a ansiedade não permitiu que ele dormisse). Enquanto isso, Josefino fez com calma, e muito bem. E não parou por aí, espontaneamente já começou a ajudar aqui e ali, carregou a massa que tinha feito para onde precisavam, isso e aquilo, e etc. Assim, se tornou no primeiro dia o favorito de Porco Maia. Já Waltinho... quando acordou, a massa tinha secado, e seu pé havia ficado preso. Os outros pedreiros se reuniram para rir dele, enquanto tentava escapar com desespero, mas em vão. Josefino, tentando não rir, quebrou um pedaço do cimento, e conseguiu tirar o pé do amigo, mas não a bota, revelando a meia furada do Juventus que ele usava. Todos riram até perder o ar. Walter chorava de raiva, enquanto o amigo tentava acalma-lo, sem sucesso. E esse foi só o começo.
Dois anos depois, não podia ser pior. Waltinho era empregado de Josefino, que agora era estudante de engenharia civil. Era mais um dia de infindável humilhação. Waltinho era responsável por um grupo de pedreiros, graças ao seu amigo de sucesso. Mas estes não o respeitavam nem um pouco, riam sempre de suas ordens e falta de jeito.
> O Grande Vôo Da Ave Vingadora
Então, chegou grande dia. O dia D. Estavam todos terminando uma obra, um predinho de cinco andares. Retiravam os materiais de construção, e só faltavam 250 quilos de tijolo que estavam no quinto andar. Ninguém queria ir carregá-los em 50 viagens. Restava falar com o seu Josefino, que sempre tinha uma boa idéia e... não desta vez. Agora era a sua hora, Waltinho. Vai lá! E foi o que ele fez. Observou o que precisaria para por o genial plano em ação: um latão de lixo (que estava cheio), uma tampa de bueiro muito bem fixada ao chão, com um invulnerável puxador bem grosso de ferro, uma roldana e cordas. Com um sorriso de vitória, instalou a roldana na parede externa do quinto andar, passou a corda, envaziou o latão, amarrou uma extremidade da corda, e a outra no puxador da tampa. Todos olharam espantados - que ótima idéia! Logo de Waltinho! Sorridente, ele foi e despejou os tijolos no latão (que havia sido previamente puxado até o quinto andar). Desceu, acenou para os subordinados, que o cumprimentaram, e então, soltou a corda do puxador.
_Não, Walter! _gritou Josefino. Waltinho se esqueceu de soltar a corda, sendo puxado a uma velocidade estrondosa para cima. Pela altura do terceiro andar, sua cabeça se chocou contra o pesado latão, fazendo-o dar um grande grito. Apesar da pausa, o latão continuou a cair, e Waltinho a subir. Então, ao chegar no quinto andar, a mão de nosso herói entrou na roldana, triturando quatro dedos. O sangue caía na cara deformada pelo sofrimento e pelo pânico (se bem que antes já era deformada). E BLAM!. O latão caiu no chão. Só que a forte batida abriu um buraco em baixo. E o tijolo... bem, o tijolo caiu do latão, se esparramando no chão. E o latão, cujo peso levantou Waltinho, agora jogava-o cinco vezes mais rápido contra o chão. E, diante da explosão do crânio de Waltinho contra os tijolos, a reação dos presentes foi única. Todos choraram a trágica morte de Walter. Todos choraram...
... de tanto rir.
escrito por LUCAS VIEIRA às 16:41| argumentos.
Quinta-feira, Março 18, 2004
Putaqueopariu! Qual corno, fui o último a saber! Semântica no Blogs of Note, diacho!
Como já disse abaixo, estou enfrentando uns pequenos problemas de disponibilidade. Não mais estudo integralmente, porém trabalho e estudo à noite, o que torna tudo mais delicado ainda.
Falei um dia, não sei com quem, nem sei se a pessoa lembra. Profetizei o dia que o nosso querido weblog entraria ou na lista B.O.N. ou naquele mini-paga que o Bloggerman escreve. Sabiamente, modéstia à parte, disse que "quando a porra do blog entrar numa dessas, vai estar o mais desatualizado possível". Pimba. Já posso ser candidato a Messias Século XXI. Cristo já tá velho, precisa descansar, coitado. Tá na hora já.
Tendo em vista que mudei radicalmente meu círculo social, jogo verde: quem, por acaso, for fã dos meus escritos e, por ironia, estudar no Anglo Cassiano Ricardo, noturno, por favor, buzine. Isso, claro, se for homem. Se for menina, dá um alô, porque buzinar é um verbo muito feio. Sou feio, tenho gostos mórbidos e chato até o talo, mas o que importa é o interior.
Falando em interior, um dos meus interiores favoritos é a parte de dentro dos bovinos. O texto se explica.
O prazer da carne
Prazer, para os cristãos, leva ao inferno. Para os hedonistas, é o próprio céu. Os seguidores do budismo, mais acanhados, têm todo aquele mito sobre a Nirvana, onde encontrariam o prazer espiritual mais elevado. Os monges tibetanos, presos em seus monastérios, encontram o prazer na oração e reflexão. Nós, meros mortais, encontramos o prazer supremo em um simples, fácil, prático e enorme naco grosso de carne.
Mais gostoso que sexo (para quem pode), mais invejado que dinheiro (para quem tem), mais emocionante que futebol (para quem gosta), carne é o prazer máximo da vida de uma pessoa que não tem nenhuma aspiração à vida eterna. O sentimento em saber que está devorando um animal no mínimo cinco vezes mais pesado que seu amigo obeso é um prazer enorme para nós, humanos, seres evolutivamente onívoros mas que, num passado muito distante, teve medo de um búfalo qualquer. Comemos de tudo hoje, talvez, para simbolizar um tipo de vingança sobre os animais que se achavam no passado e agora não passa de gado.
Ultimamente, todo mundo come carne de todo mundo. Até uns tempos atrás, comia-se apenas o tripé gastronômico básico vaca/frango/peixe. Hoje em dia, devido principalmente ao estreitamento nas relações entre o oriente e o lado oeste do mundo, comemos até cobra. Lagostas, siris, camarões, agora é tudo normal, mas nenhum animal, nenhum mesmo, consegue tirar do ponto mais alto do pódio a incrivelmente extasiante carne de boi.
Mas humanos conseguem. Vegetarianos. Essa raça!
Vegetarianos e também aqueles americanos cheios das dietas, mas esses não contam, visto que a mais conhecida delas, a de Atkins, até incentiva o consumo bovino. Deixemos de lado o tipo, porquanto.
Vegetarianos são estranhos. Renegam o motivo de sua sapiência pelo bem da sapiência. Não entendem que carne nos faz engordar, crescer, tem proteína e ainda segura o cabelo no lugar; e tem caloria, e tem ferro, e tem fibra. É demais. Sem Galeto de Ouro e similares, não descobriríamos as microondas, com certeza.
Cá entre nós, aliás, boi é foda. Comemos praticamente o corpo inteiro do bicho, deixando só os ossos, as patas e a cabeça. Os ossos são transformados em enfeite por boiadeiros, a cabeça é adorno de bar de beira de estrada e com as patas se faz um doce de gosto meio que duvidoso, mas já de ótimo tamanho para uma coisa que só serviu para deixar quinhentos quilos suspensos no ar por quarenta anos. Até ele vivo dá show: queijo, nescau, pingado... tudo culpa do chifrudo. O que os vegetarianos não entendem é que essa sinédoque denota ruminantes, e não o cramulhão, pai de toda a mentira. Aí que está a causa de toda a discórdia. Discórdia sim: é impossível conjecturar que alguém não consiga gostar de carne. É impossível admitir; passível de tratamento, como aquele infeliz que tem fobia a sexo.
Vegetarianos também discutem entre os iguais, mas mais sutilmente. Existem, basicamente, só pincelando, duas vertentes anticarne dominantes: os salutistas e os cirenaicos. Vos explico: Salutistas vêm do adjetivo "salutar" que, por sua vez, vem do latim "salutare", conservação da vida. Esses são os mais chatos. São aqueles que não gostam, não comem (às vezes até gostam, mas se esforçam para não comer) e ainda pentelha todo mundo. Diz que é feio, que é sacanagem, que é anti-higiênico, e termina a argumentação falando que é ruim para a saúde. Na casa do caralho! Cirenaísmo, por outro lado, foi a escola fundada por um discípulo de Sócrates muito folgado, o Cirene, e pregava que o esquema da vida era curtir. Vegetarianos desse tipo são menos invasivos, e seu argumento consiste apenas em dizer que não se interessa pela carne. Nada o impele a comê-la; nem o gosto, nem o cheiro, nem a textura. Poderia ser chamada frigidez gastronômica essa doença, mas, pela doutrina do politicamente correto, ignoramos o lado patológico da situação e mascaramos tudo por trás do multi semântico verbete "gosto".
Um dos pontos em que ambas as Escolas têm intersecção é em uma coisa um tanto quanto polêmica no Brasil do ano passado: soja. Todos elevam alegremente o status desse feijãozinho insosso que deveria apenas ser usado na fabricação de líquidos gordurosamente pegajosos, tal qual Soya. Vegetarianos, porém, (eita, raça!) inventaram de fazer carne de feijão. Falando nesses termos tudo fica meio sem gosto, mas esse é o ponto. Vaca come mato; soja é mato. É aquela antiga história da alemã que vem para nosso país: é só chegar um rapaz de sorriso cativante, corpo moreno e jeitinho de latin lover que já tá no papo. Agora, levar uma senhora brasileira - que lá esteve - e que tenha a mesma beleza e dinheiro da gringa, ah!, isso sim é trabalho demandante de muito investimento.
Felizmente os preceitos antiprotéicos são frágeis, exatamente por causa da soja. Cada qual com seu alimento, pois! Carnívoros com carne, vegetarianos com feijões. Salutares não comem carne por fazer mal à saúde (dizem eles), enquanto cirenaicos não comem por ser ruim (dizem eles), entretanto todos comem a esdrúxula imitação formada por grãos moídos, ou sei lá como. Dá para entender os naturebas, mas... e os que não comem por não querer? Todos dizem, quando pressionados, que carne de soja é "tão boa quanto a carne normal". Ora! Agora lhes pergunto: se é igual, porque gostam de uma, a fake, e desprezam a verdadeira, fonte de todo o prazer assexual? Textura? Bah!
Uns dizem ser mais saudável, outros dizem comer por prazer e ainda alegam ter o mesmo gosto que o naco in natura. Obviamente, um desses grupos está mentindo. Qual? Aposto com bastante convicção nos naturalistas. Eles mentem. Carne de soja não tem o mesmo gosto que carne, já discutimos. Ao dizer "Carne não tem o mesmo gosto que soja" a um cirenaico, este pode responder "sim, prefiro soja". Um naturalista, temendo hipocritamente pelo bem estar de todos, diz que você que "não sabe apreciar boa comida", que soja "é o pináculo do carnivorismo". Mentira. Eles mentem para provar algo, coisa que quem pensa somente na própria bunda não precisa fazer. Cirenaicos pensam apenas no prazer próprio, não ligam se você morrer de infarto ou não.
Voltando à religião predominante no mundo atual, notamos que prazer é tabu. Prazer é pecado, e pecado é tabu. Em termos, prazer não é, por si só, maldoso. Se, por exemplo, você sentir êxtase em rezar, estará regozijando-se de um jeito bem legal aos olhos párocos da cidade. O problema é que isso tem uma certa dificuldade. Todo o resto, incluindo o clímax sexual, é mal visto. Paciência. Cristianismo é velho e, se não extinguir-se, necessitaria de uma boa reforma. Enquadrar o prazer em um lugar a ele devido já seria um bom começo.
Mentira, por outro lado, é sempre chata, mesmo aquelas mais banais. Isso sim, Cristianismamente falando ou não, deve ser pecado. Mentira é... chata. Vegetarianos preocupados com a saúde mentem. Vegetarianos preocupados com o prazer simplesmente têm prazer. Não mentem porque não precisam. Salutares sim. Mentem para provar que carne e feijão são farinha do mesmo saco. Vitupério!
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 01:42| argumentos.
Domingo, Fevereiro 15, 2004
Só para ninguém esquecer:
É a vida
Cena 1
Cenário: Praça da Sé, seis horas da tarde.
[Câmera pega o cenário por cima, curvando-se e realizando um rasante, parando ao lado dos personagens: Celso e Camila]
[Celso: Magro, estatura mediana, corpo normal, não gordo, mas com uma barriguinha protuberante, Cabelo castanho, não muito curto, cacheado. Ator cogitado: Caco Ciocler]
[Camila: Magra, cintura fina, seios e cintura medianas. Meio loira, cabelo encaracolado um pouco abaixo da cintura. Atriz cogitada: Mariana Ximenes]
Celso: Então, Cá... você ainda não me falou como foi o primeiro ano longe da facul...
Camila: [passa a mão no cabelo] Nem me fala! Estou adorando. Sabe, Celso... poder ter seu dinheiro... ser independente, poder levar quem você quiser para casa, sem seus pais encherem o saco.
Celso: Há! [risada] Isso me faz lembrar o terceiro ano...
Camila: [fica envergonhada] Não...[risos] Não vamos falar disso não! [risadas de cumplicidade, ambos]
Celso: Ora! Mas o que tem de mais? A gente não era tão maduro quanto pensavamos naquela época... estávamos no direito de fazer aquilo tudo.
Camila: É, mas se minha casa não tivesse aquela lixeira de ferro, você não ia conseguir ter se escondido. Meu pai ia ver e... [começa a dar risada] iria te capar!
Celso: [risos]
Camila: [fala rindo] Você lá na rua, todo pelado, e meu pai com uma faca na mão! [risada histérica] Foi muito engraçado.
Celso: [fingindo aborrecimento] Fale por você. Não achei nada engraçado [sucumbe ao riso].
Camila: É... o pouco tempo que a gente ficou... não teve nenhuma trepada "daquelas"... [Celso interrompe].
Celso: Pra falar a verdade não teve trepada nenhuma...
Camila: Não reclama. [rindo] Não teve sexo... mas vou lembrar de você pro resto da minha vida! [risos] "O namorado que fugiu pelado de casa com medo do meu pai!" [mais risos]
Celso: [envergonhado] É. Eu não tive nem chance de mudar isso.
Camila: Como assim?
Celso: Dizem que faço um ótimo oral [risada marota].
Camila: [risos histéricos][sorriso safado] Bom. Só provando. Celso... tenho que ir.
[Beijam-se no rosto].
Celso: [sério] Olha. Desculpa qualquer coisa. Acho que te assustei.
Camila: Relaxa.
[Camila dá as costas para Celso e começa a se afastar. A câmera muda para trás do ator, focalizando a atriz se afastando. Ela para, olha para trás, sem girar o corpo]
Camila: Por falar nisso... vai ter uma festinha no meu apartamento hoje... à meia noite. Dá uma passada lá.
[Câmera volta para Celso]
Celso: [sorri] Tudo bem! Passo sim. E quem mais vai estar lá?
[Close em Camila]
Camila: [sorri maliciosamente][Pausa] ... você.
[Corta]
Cena 2
Cenário: Prédio de Camila, meia noite.
[Câmera focaliza a lua. Corta. Focaliza o prédio. Corta. Focaliza um Fiat Pálio branco estacionando na frente do prédio. Celso sai do carro. Corta. Close em Celso olhando para cima. Ele engole seco e entra no carro. Corta. Focaliza carro arrancando na avenida. Corta. Focaliza fachada do prédio. Câmera sobe, até enquadrar uma janela. A luz acesa projeta na cortina a sombra de duas pessoas fazendo sexo. Corta. Close em Celso, dentro do carro, dirigindo. Semblante de fracassado. Corta. Focaliza carro em alta velocidade em uma avenida. Câmera acompanha parada. Câmera volta para a janela. Gemidos de mulher são ouvidos, bem baixo. Câmera se move até o relógio da igreja, na rua perpendicular ao prédio. Lê-se uma hora da manhã. Fade out. Vinheta da Globo entra]
Locutor: Amanhã se inicia o Horário de verão! Não perca nenhuma oportunidade, acerte seus relógios!
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 04:48| argumentos.
Domingo, Fevereiro 08, 2004
Primeiramente, queria pedir desculpas por esse lapso entre-postagens. Estive ocupado com um projeto que também envolve escrita, o que desanima a pessoa a escrever para outros lugares - no caso, o Semântica. "Porra, já escrevi três páginas de texto hoje, não vou escrever mais nada". Mais ou menos isso que acontecia comigo, caso também conhecido como vagabundagem. Talvez continue acontecendo, só o tempo dirá. Bom, entre o certo e o quase-lá, preparei um continho leve aqui para vosso deleite. Aproveitem.
Estiloso demais
Alguém já falou para você que todo estilista é guei?
Bom, não sei se todo, em absoluto, um por um, estilista é homo, mas, certa vez, conheci um que era. Homossexual e invejoso.
Na época, ele estava sem parceiro fixo. Não era problema, claro. Era famoso, bonito e sofisticado - estilista, pomba! - sempre existia um ou outro gajo arrastando suas asinhas para ele. E ele, é claro, se aproveitava. Adorava aquela vida, de um homem por noite - por semana, no tempo das vacas magras. Infelizmente, para ele, sempre foi um rapaz sentimental, e, um dia, teve uma crise de identidade.
"Droga, o que estou fazendo?", "como sou um lixo!", "sou quase uma prostituta de luxo!", pensava. Obviamente começou a refutar a idéia de ser tão sexualmente ativo e diversificado para sempre: Queria um namorado. Ele, pela profissão - era um homem da moda de sucesso, não qualquer um - viajava demais, sempre seguindo o circuito fashion mundial. Não podia se dar ao luxo de criar raízes. Isso, portanto, tornou sua caçada um tanto difícil.
Era um rapaz muito invejoso. Se já o era antes dessa crise, depois, então, piorou a um nível exponencial. Não podia ver pessoas felizes que já tentava estragar tudo. Com isso, foi ficando impopular por aí. Principalmente na sua roda de amigos - Ora, se uma pessoa que você considera amiga faz uma palhaçada, das do tipo que ele fazia, você iria continuar a chamando de amigo? Eu não. - Isso foi aumentando e aumentando, até que, ao seu lado, sobrassem apenas um ou outro amigo mais chegado e com mais paciência.
Um desses amigos era Sobral. Era um rapaz bonito também. Uma beleza madura. Homem de barba por fazer, cabelo desarrumado - um must. Todas as mulheres caiam babando em cima dele. Ele, pois, poderia fazer uma enorme festança, cheia de sexo e mulheres e com pouquíssimos homens, talvez apenas ele mesmo, mas não o fazia por um simples motivo: gosto sexual idêntico ao daquelas que tanto gostavam dele. Em outras palavras: bicha. Uma bicha com namorado, Carlos Caramujo.
Caramujo, por sua vez, era uma pessoa simpática, alegre e inteligente. Amava Sobral, e sabia que o sentimento era mútuo. Carlos era bonito de rosto, mas não um primor da beleza. Não era malhado, não "descuidava-se" da barba nem do cabelo - verbo extremamente cretino, visto que cuidados aos cabelos "descuidados" é o que não falta. Também não exibia uma barriga tanquinho. Esse era seu maior problema. Era obsessivo por ter um corpo definido. Tamanha obsessão o levou a uma clínica psiquiátrica. Sobral, coitado, ficou desolado.
Meses depois, sempre visitando Carlos - quando dava: emprego o impedia de vê-lo toda semana - Sobral continuava triste. Não sabia o que fazer. Amava Carlos de coração, e doía assistir seu amor sendo trancafiado em uma instituição para loucos - era o que pensava. Dia desses, o estilista deu uma passada em sua casa.
Conversaram, tudo o mais. O estilista, deus sabe o porquê, estava feliz com a separação dos dois, mas, logicamente, não demonstrava. Até que, por milagre ou ironia do destino, Caramujo entra pela porta, citando Dino Silva Sauro: "Queridô, cheguei!".
Pronto. O sorriso da cara do estilista se foi no momento que a porta abriu. Sua inveja subiu à cabeça, tal qual quando deixamos o leite fervendo e vamos assistir TV. Sempre acontece porcaria.
- Carlos! - Grita, histérico, Sobral.
- Sobral! - Grita, histérico, Carlos.
O estilista só assistiu ambos se abraçarem, se beijarem, et cetera. Coisa não muito legal para quem não é "do meio".
- Então, Sobral, como estou? Acho que agora me aceito como estou! - disse, confiante, levantando a camisa e mostrando a todos a barriga. Meio flácida, por sinal.
- Está lindo, Carlos! Ai... como é bom te ver! - e abraçou o namorado de novo.
- É. - disse o estilista, com inveja na voz - Não está magro, magro, como uma pessoa bonita deve estar. Mas está menos gordo.
Os dois, que estavam se beijando, param na hora.
- Jesus... - advertiu Sobral. Jesus era o nome do estilista.
Carlos, em prantos, correu para o quarto, enquanto os dois assistiam, atônitos, o acontecido. Sobral continuou seu sermão:
- Jesus, você está louco?
- Ora, mas... que que eu fiz? - Perguntou, como se não soubesse.
- Cara... - tentava explicar a situação, nervoso - Eu falei que ele ficava bolado com isso mas, mesmo assim, você continua com isso. Que você tem? É inveja tudo isso, Jesus? Você acha legal estragar a vida dos outros? Droga... bem que o Manoel falou que você estava um chato!
- Mas, Sobral, veja bem... se ele está bom mesmo, não deveria ligar para o que eu falei.
O estilista para de falar. Ouviram um tiro, vindo do quarto em que Caramujo havia se trancado. Cheiro de pólvora em sangue em segundos invadiu a sala em que estavam. Sobral enrijece. Jesus, por outro lado, só levanta a sobrancelha esquerda e solta, meio sem querer, meio inaudível:
- Putz.
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 04:54| argumentos.
Sexta-feira, Janeiro 30, 2004
Pátria amada?
Você se sente feliz por ser brasileiro?
Essa perguta ataca todos nós, brasileiros que pensam. Por que seríamos patriotas, se nosso país é uma mula que ainda não aprendeu a andar? Um país onde o axé, o funk e a fofoca estão nas graças da maioria da população - alma do Estado - não merece amor.
Uma prova dessa nossa repulsa ao brasileirismo são as Armas Nacionais. Se fôssemos patriotas realmente, não precisaríamos nos alistar, obrigatóriamente, ao atingir a maioridade. Maioridade essa que, antes de atingi-la, todo mundo pensa que é uma maravilha. "Eba, farei minha carteira!", pensa o filho do pai que tem três carros. "Eba, poderei ir ao puteiro sozinho!", pensa seu colega, querendo dizer sei-lá-o-que. "Eba, poderei votar!", lembra aquele seu colega que sempre quer se aparecer falando de política (talvez ele já tenha tirado título de eleitor, mas, aqui, está só para propósitos ilustrativos. Assim como para gastar linhas e deixar o texto volumoso, como essa ressalva que lêem agora). Enfim, sonham com a maioridade para, quando ela enfim chegar, destruir suas ilusões e enterrá-la embaixo de milhões de documentos e tintas nos dedos, qual um criminoso. Dezoito anos é quando o Estado deixa de olhar para você como um dependente e passa a saber que você é um contribuinte. Brasil sorri, desejando riquezas a você, já que quanto mais dinheiro, mais imposto. No Brasil, ainda, temos um diferencial: somos obrigados a servir tal pátria interesseira do modo mais idiota possivel. Alistando-se. Caso não saibam, quem começou com isso foi Olavo Bilac, uma espécie de Roberto Carlos da poesia do início do século passado. Todo mundo puxava o saco dele, e sempre havia uma charge ou foto sua estampada em alguma revista - sim, precursoras da Contigo!. Ele sim era bem patriota. Escrevia umas coisas estritamente encaixadas, rima perfeitas, coisa de primeira. Em vez de se limitar às declamações ou coisa do tipo, foi dar uma de Romário e saiu da sua praia para falar de política. Disse ele "Porra, acho que todo brasileiro devia se alistar!" e desde esse dia somos obrigados a aceitar todo o patriotismo que Olavo compartilhou com o país naquele instante.
Se o fato de ter de prestar contas ao Exército nacional já é uma coisa chata, imagina agora o passo mais importante da sua vida, desde que você deu a primeira bimbada: ter um trabalho de carteira assinada. Brasil, por mais que queira que você fique rico e pague impostos astronômicos, não dá muitas condições para o desenvolvimento da economia - dela, a chamada macroeconomia, e sua também, mais conhecida como "dinheiro no bolso". Como o Brasil é um país novo, inconsequente, simplesmente esquece que as pessoas têm de ter dinheiro para pagar as coisas e coloca as tributações lá nas alturas, sem ligar para nada. Nesse ambiente que uma pessoa de dezoito anos tem de sobreviver, ganhar dinheiro e fazer carreira. Todos pensam que é fácil, "olha meu pai. Trabalha quatro dias por semana e todo ano vamos viajar para o estrangeiro", pergunta nosso leitor mais abastado. Claro que, se você está lendo isso, seu pai deu condições mínimas para seu desenvolvimento. Escola boa, sapato no pe, roupas, dinheiro para o lanche, bla bla bla. Ele fez isso, mesmo se você não tenha aproveitado a escola, rasgado o tênis jogando futebol no asfalto ou gastado o dinheiro do lanche com maconha. Essas coisas acontecem, principalmente na juventude de nossa geração e nas que ainda estão por vir. Só que seu pai, ao contrário que aparenta, suou bastante para conseguir. Agora é sua vez. A pátria não ajudará.
Por outro lado, mesmo que a massa ouça axé, funk, et cetera, temos no Brasil uma imensa cultura. Descomunal, para um país com apenas quinhentos anos de história documentada. Ao norte temos cultura holandesa e negra, ao sul temos costumes italianos e germanicos. Brasil é uma amálgama de conhecimento e história. Não tivemos guerras civís, como os EUA, nem um governante sangue-suga ao extremo, como o Peru, Venezuela, ou sei lá. Entretanto tivemos conspirações. Muitas. Tivemos gafes burocráticas hilárias e um monte de lei que foi feita para enganar a população, principalmente em relação à escravidão. Nossos governantes, desde Dom Pedro I, são espertos e matreiros. Para calar a boca dos abolicionistas, alguém inventou a lei dos Sexagenários, que libertava negros com mais de sessenta anos. Bonito, bonito. Velhinho tá cansado, larga a mão de ser escravo. O povo aplaude. Assim como os fazendeiros. Um a menos para tratar, pagar comida e roupas. "Vá velhinho, seja feliz livre!", bradava os senhores. Negros ficavam felizes, velhinho também. Até dar de cara com a realidade: vai fazer o que com a liberdade? Quando era escravo, ganhava comida, e nem trabalhava tanto. Ponto para os fazendeiros. Ponto para o Legislativo. Um episódio desses só pode ser configurado como palhaçada. Também acho. Mas bato palmas para a sagacidade do Estado. Claro, o Estado faz esses showzinho para os que pagam impostos astronômicos. Não sou um desses, ou seja, Brasil me sacaneia para fazer os ricos rirem. Não posso fazer nada, apenas bato palmas e rio junto. Brasil pode ficar atônito com minha reação auto-destrutiva e, afinal, chorando não vou mudar nada mesmo.
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 16:15| argumentos.
Domingo, Janeiro 25, 2004
Após um século sem nada postar, estou de volta.
A maioria não deve me conhecer. Não me importa nem um pouco. Brinco. Sou o Lucas, prazer. Espero que gostem da história. Não tem nada a ver com minhas convicções religiosas, e a intensão não é ofender, é entreter. Mas, se chocar, não me incomodo.
Visões Além-Túmulo de Adrian
Adrian era um jovem querido em sua família. O irmão mais velho, amado pela mãe, idolatrado pelo pai. "Um exemplo para vocês dois!" estavam cansados de ouvir os dois irmãos. Religioso. Ia à missa todos os dias. Tinha bolsa na faculdade, pois era do time de basquete. Oh sim, estamos em uma cidade do interior nos Estados Unidos. Adrian, loiro, olhos azuis, rezava todos os dias. Pagava o dízimo, saia com os amigos da igreja para espalhar a boa nova de cristo. Certa vez, encontrou uma menina de cerca de doze anos chorando, abraçando uma velha, caída na calçada, provavelmente uma parente. Eram umas seis horas, e ele fazia o percurso para casa. Mas então parou para ajudar a garotinha. Se ajoelhou. A garota chorava. A velha estava morta.
"É a sua vovó?"
"É! Vovó... caiu e não quer acordar..."
"Deixe-me ajudá-la. Espere, ela está dizendo alguma coisa!"
"O que? Ela está viva?"
"Sim! Ela me disse que vai pro céu, encontrar Jesus. Pediu para mim te acalmar, e um dia ela vai te ver de novo."
"Cala a boca, seu idiota! Palhaço idiota!"
"Acalme-se! Falo sério! Falei com ela!"
Mas não adiantou. A menina não acreditava nela. Ele, claro, não havia escutado mesmo a velha. E, além de mentir, não conseguiu acalmar a garotinha. Com uma grande tristeza, foi pra casa. Informou o pai que tomou as providências devidas.
E Adrian foi obrigado pelo pai para o exército, para a guerra no Iraque. Junto com ele ia Joseph, amigo de infância, do qual tinha se afastado, pois este era judeu. Na viagem de ida, o amigo foi até ele.
"Olá Adrian! Quanto tempo! Tudo bem? Como vai seu pai?"
"Ele vai mal. Teme perder o filho que vai lutar nessa guerra. Teme que meu bom sangue cristão lave a bandeira profana de Israel."
"É. Bom, é bom te ver também. Se quiser, pode aparecer no meu casamento profano, depois da guerra. Vou me casar com a Ismaella, lembra? Ela está esperando meu filho. Fique tranqüilo, não vou deixar nem você nem eu morrermos."
"Mais um judeuzinho. Espero que meus filhos não morram pela sua raça."
Joseph, frustrado, voltou para o seu lugar no avião.
A tropa de Adrian havia acabado de perder o comando. Estavam desorganizados, em meio às ruas pobres, arenosas, estreitas da cidade, que parecia um labirinto sombrio, mesmo sendo meio dia, com aquele sol ardente. Em cada casa, um guerrilheiro, ou mesmo um pai de família, querendo defender seu povo. "São só muçulmanos" era o pensamento que motivava a matança pelas mãos trêmulas de Adrian. Foi então que a arma enguiçou, algum problema técnico, e o gatilho emperrou. Um soldado inimigo parou na sua frente e mirou. Falou coisas ininteligíveis, exceto pela palavra "Alá". Então, quando Adrain se deu por morto, que seu amigo se atirou em sua frente. Joseph, baleado. Rapidamente, pegou a arma do amigo e atirou no iraquiano. Foi até o velho companheiro. Este sussurrou para que amigo cuidasse de Ismaella e de seu pequeno judeuzinho. Adrian, naquele momento, chorou e entendeu os erros que estava cometendo. Joseph morreu.
Um choro fraco atraiu a atenção de Adrian, que se levantou e viu uma garota de uns onze anos sobre o corpo da avó. De novo. Uma segunda chance, enviada por Deus, ele tinha certeza. Foi até a menina. Esta olhou para ele, com raiva, ergueu uma arma e atirou, acertando seu ombro. Caído, com medo, ele atirou. Quando se deu conta, havia matado as duas. Dessa vez, a avó não estava morta.
"Meu Deus... me perdoe... foi um erro... perdão..."
BLAM
E, com um tiro, o para sempre desolado pai da menina matou Adrian.
Adrian acordou. Estava no pé de uma escada dourada. À sua volta, nuvens. Havia sido perdoado e mandado para o paraíso, pensou. Subiu a escada, muito feliz. Ao chegar lá em cima, viu um anjo loiro, com uma grande túnica branca por debaixo da armadura dourada, olhos dourados, traços leves, segurando um estranho bastão, como uma lança. Mas, era um anjo. E sorria.
"Seja bem vindo, Adrian."
"Qual é o seu nome, anjo?"
"Oh, meu nome é Belial. E não mais um anjo, querido Adrian."
Adrian então arregalou os olhos. Era impossível. Reconheceu o pentagrama invertido na linda armadura de Belial. Aquilo era um pesadelo muito grande para ele.
"Fique tranqüilo. Não vamos te torturar eternamente. Não se vencermos a nossa batalha."
"Do que fala? Está brincando comigo?"
"Não. Embora tenha negado por toda sua vida, sempre foi um grande pecador. Além disso, o mal nunca foi uma força inferior, afinal, temos influênciado a humanidade - principalmente os cristãos - por milhares de anos. E deus nada fez. Ou melhor, tentou, mas em vão. Logo saberá de tudo. Para início, continue adorando cristo. Ele é um dos nossos. O nosso maior triunfo. Bom, por enquanto, só acorde e continue sua vida."
Adrian acordou, suando frio. Era a noite da menina e da avó. Tinha sido um sonho.
Ou não?
escrito por LUCAS VIEIRA às 02:18| argumentos.
Quinta-feira, Janeiro 22, 2004
Mais um conto:
Despertando
Andrezza era uma menina meio gorda. Não obesa, daquelas que, mesmo enorme, tem um charme inerente ao tamanho. Uma meio-termo de gordura. Aquele grasso feio de se olhar, de pessoa desleixada. Uma obesa poderia falar que tem problema de hormônio, desfunção nas glândulas. A desculpa de Andrezza era - coitada - inexistente.
Tinha mais ou menos quatorze anos quando aconteceu algo que mudou sua vida. Andrezza não tinha ninguém, e culpava isso ao fato de ser gorda. A verdade é que nunca foi atrás de ninguém, sempre sonhou um conto de fadas, onde seu amado - quase sempre fruto de um amor platônico e patético - se declarava a ela de mil formas possíveis. Isso nunca aconteceu de verdade, desnecessário dizer. Seu rosto não era feio - em contradição a seu corpo, que era, no mínimo, esquisito - poderia arranjar um namorado, caso se sujeitasse ao capitalismo do amor e corresse atrás da concorrência.
Não obstante a isso, levava uma vida normal de garota de quatorze anos. Ia a escola, fazia catecismo, brincava com as amigas (falando nisso, uma das coisas mais tristes em relação a Andrezza é o fato dela nunca ter dado a atenção que as amigas mereciam. Andrezza, hora ou outra, tinha a mente inundada com teorias conspiratórias destrutivas. Vira e mexe achava que uma amiga a sacaneava pelas costas, coisas dessa magnitude). Logicamente, Andrezza, por vezes, também viajava. Ia com a mãe para Barueri, sua cidade natal, todo fim de ano. Viajavam de ônibus. Para Andrezza era sempre uma alegria ir para lá e ficar longe de todos que a conheciam. Poderia andar pela rua não como "a gorda da oitava cê", mas sim como a "menina que veio de São Paulo", ditava mais um de seus pensamentos conspirativos. Ficava triste, porque, na maioria das vezes, de nada adiantava mudar de cidade. Se em São Paulo ela se achava conhecida como a gorda da oitava cê, em Barueri, sempre que via alguém rindo na rua, fosse por qualquer motivo, sempre vinha a sua mente o rótulo de "gordinha de São Paulo". Coisa de criança de quatorze anos. Tais idéias só saíam da mente da garota quando alguém sorria para ela, novamente, por qualquer motivo que a pessoa tivesse para sorrir. Andrezza sempre relacionou sorriso ao reconhecimento de sua beleza, sabe-se lá por quê.
Em uma dessas viagens de ônibus, Andrezza, por inépcia do rapaz que vendeu as passagens, teve de sentar-se longe da mãe - sua única parente em São Paulo. Seu pai falecera por problemas renais ao fim do ano anterior. Mãe sentou-se no quarenta e lá vai cacetada e filha no vinte e poucos. Vizinha da mãe tinha uma senhora de idade e religiosa. Chatíssima. Não aceitou a troca de lugar com a filha, alegando que se o motorista dormisse na viagem - era um percurso noturno - teria mais "chance de viver sentando atrás". Periferizando a filha, por outro lado, havia um rapaz que aparentava ter a idade condizente com o número da poltrona no qual sentava, muito atraente. Atraentíssimo, pensou Andrezza. Tal vizinhança praticamente a coibiu intimamente de tentar trocar de lugar para ficar mais perto da mãe. Chegou até a mentir, dizendo que o rapaz também não sairia da poltrona, para a mãe. A genitora de Andrezza, impotente perante a situação, não tinha nada a fazer a não ser aceitar. Sentou-se ao lado da velha senhora na última fileira do ônibus, enquanto a filha, lá no meio, comia com os olhos o gato. E o ônibus zarpou. Bem dizendo a verdade, Andrezza, como sempre, não abriu a boca uma vez para falar com o rapaz. Seu medo de ser rejeitada a silenciava, mais uma vez. Ficou emburrada por causa disso, mas sem levantar um dedo para lutar contra o temor. E os dois ficaram lá, quietos, em um estado de semi-sonolência, até mais ou menos meia hora de viagem. Andrezza notou uma sensação estranha na perna. Olhou para lá e viu nada menos que a mão do rapazola roçando suas coxas. Ela, já começando a se excitar com a situação, pousou a mão sobre o membro dele, ainda dentro da calça jeans. E ela foi abrindo o zíper, procurando um meio de adentrar a roupa dele e, com isso, fazê-lo adentrar nela. A mão selvagem do seu amante sobe, levantando suas roupas, até os seios, grandes por causa da gordura localizada, mas menos flácidos que o de costume, devido à quentura da situação. Ela finalmente achou o que procurava na calça dele, e o arrancou para fora. Caiu de boca. As mãos dele, por outro lado, abriram caminho por trás, descendo pelas costas seminuas da menina, até entrar por dentro da calcinha e além. Sim. Ela até que enfim estava tendo seu conto de fadas. Terminado o "blowjob" rodoviário e seja-lá-o-quê que o rapaz estava fazendo com os dedos por baixo da calcinha dela - já no joelho - ela finalmente se prepara para ser penetrada pela primeira vez. Subiu em cima dele, que chupava seus seios vorazmente, e, vagarosamente, desceu até a fusão se seus sexos.
Acordou no hospital, com soro fisiológico pendurado, respirador na boca, tubo até a traquéia, eletrodos e mais eletrodos, televisão ligada e aquele barulhinho do cardiógrafo. Não. Não era uma noite de amor no ônibus. Ela bem que estava achando estranho ninguém reclamar da pouca vergonha. Foi um sonho. Que, por sinal, o motorista também poderia ter tido, já que dormiu no volante e deixou o ônibus bater em um caminhão-cegonha. Andrezza não sentia suas pernas. De fato, não as tinha mais. Queria chorar, mas não conseguia. Ficou pensando o porquê de nenhuma lágrima ter caído. Talvez porque ela merecesse, sua vida fosse medíocre e ela nada fazia para mudá-la, concluiu. Lembrou da mãe. Aí sim, desfez-se em prantos. Olhou para a televisão. Já era noite, estava sintonizada no SBT. Passava Ratinho. Entrevistas banais. Andrezza virou a cara e continuou chorando a noite inteira, não por causa dela, mas por causa da mãe. Antes de tentar dormir, pensou "que programa idiota".
Mal sabia ela que, do outro lado da cidade, estaria a velhinha - de nome Catarina - sendo sondada pela produção do programa. "Senhora de oitenta anos foi única pessoa a se salvar sem um arranhão de tragédia na estrada" seria a manchete ideal para levantar o ibope do programa.
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 01:12| argumentos.
Domingo, Janeiro 18, 2004
Andaram me perguntando o porquê da cruz invertida no fundo da página. Explico: aquilo não é exatamente uma cruz invertida "símbolo internacional do anti-cristianismo". Poderia ser, claro. Pode ser também uma cruz invertida, símbolo internacional do São Pedro, primeiro Papa da igreja católica e, assim como Jesus, morreu na cruz. Como era muito puxa-saco, exigiu ser crucificado de cabeça pra baixo, já que não era digno de morrer como cristo. Acho isso uma tolice. Se eu fosse um dos algozes do Pedro (ou Paulo, sempre me confundo), enterraria a cabeça dele e o deixaria pelado, pra algum safado o sodomizar ou algum corvo o comer vivo, só pra deixar de graça e ficar exigindo as coisas. O símbolo que estampa nossa página também pode ser um martelo, ou uma espada de ponta romba, ou ainda uma espada inacabada (sei lá, o ferreiro foi dormir, foi comprar leite, sinceramente não sei). Usando a imaginação, pode-se dar milhares de designações e explicações para a cruz aí. Ela pode ser um machado (notem a curvatura dos braços), ou então um anzol com peso embutido. Sei lá eu. Quem for metaleiro, que seja uma cruz invertida/símbolo do mal. Se for cristão, que seja a cruz de São Pedro. Se for marceneiro, que seja um martelo. Vocês que decidem, não me encham o saco. No final das contas, a cruzinha aí, mesmo sendo uma imagem, entra na máxima "é uma questão de semântica".
Se bem que "anzol" é meio forçado...
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 15:46| argumentos.
Sábado, Janeiro 17, 2004
- Senhora, você comeu algo realmente podre.
- E o que eu comi, doutor Marcelo?
- Faremos a autópsia já já. O resultado sai em torno de uma hora.
Obrigado pela curtíssima, Pedro!
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 04:14| argumentos.
Quarta-feira, Janeiro 14, 2004
Jack era um rapaz talentoso no que fazia. Era espião. A diferença era que... como posso explicar? Jack era invisível. Poderíamos ficar aqui sentados discutindo como e porquê disso, mas não vem ao caso. foi que, quando a mãe sentou deitou na mesa do obstetra e iniciou o trabalho de parto - não exatamente nessa ordem, que fique claro - seu canal vaginal expandiu, como se uma criança estivesse passando, mas ninguém via um fio de cabelo dela. Autoridades foram avisadas, a mídia foi chamada, a vizinhança toda ficou sabendo em um piscar de olhos. De uma hora para outra, aquele era a gravidez do século.
Mas não ficou assim por muito tempo.
De fato, a mãe de Jack não chegou nem a segurar o filho no colo. Ele foi praticamente sequestrado pela CIA. A mãe foi coagida a dar Jack ao governo e ficar de bico calado, assim como os médicos e enfermeiros que participaram do esquisito nascimento.
O caso foi completamente abafado, e Jack foi enviado à Capital. Podemos dizer que Jack, desde o dia em que nasceu, nunca mais foi feliz.
Na sede da CIA Jack cresceu e foi treinado para ser o espião perfeito. Não precisava de disfarces, já que ninguém o via. E Jack treinava. Treinava e treinava para esquecer que tinha uma vida. Aos vinte e cinco ainda não tinha conhecido uma mulher, no sentido lúbrico da coisa. Não teve a mesma sorte que teve James Bond. Jack, além de não se envolver socialmente com ninguém a não ser seus superiores, não tinha uma Moneypenny. Sua secretária, por assim dizer, era gorda e feia. E Jack, para não pensar em sexo, pensava em espionagem. Essa fuga da triste realidade que vivia transformou-se na sua vida e Jack, além de ser o único espião invisível do mundo que se teve notícia, era o melhor. E sabia disso.
Tal status modelou sua personalidade de um jeito tal que o Jack deprimido e digno de pena deu lugar ao Jack orgulhoso e ostensivo. Virou um pernóstico exibido. Sua voz, que era melancólica e fraca, transformou-se em um megafone de gracejos e gracinhas. Se achava O Gostoso, mesmo seu tato afirmando o contrário. Virou um Narciso pós-moderno. Seu maior sonho agora não era uma mulher, era ele mesmo.
Ganhou a confiança e a amizade dos maiores cientistas e técnicos da CIA - isso é o que ele achava. Os pesquisadores não o aguentavam. Sempre que podia, tentava se informar melhor sobre seu problema, e sempre deixava uma indireta no ar, para os cientistas trabalharem paralelamente em um jeito de fazê-lo visto. Queria porquê queria ver o próprio rosto.
Em uma missão, onde teria que seguir um cônsul japonês por aí, acabou notando, mesclada à paisagem, um singular nativo, idoso já, olhando para ele. "Mas como..." pensou, "...se sou invisível?". Aproximou-se do velho japonês e perguntou se podia vê-lo. O velho ficou em silêncio por uns dez segundos, deu meia volta e saiu andando, daquele jeito que só mestres de kung-fu conseguem andar. Jack o seguiu até um templo. "Você consegue explicar porque sou assim?", perguntou ao ancião. Seguir o Cônsul já havia caído nas suas prioridades faz tempo. o velhinho respondeu, com uma voz a lá Miyagi "A pergunta é: você quer mesmo se ver?". "Claro!", afirmou, confiante. "Olha aquela sombra ali no espelho? É sua". Jack sorriu. Andou até o espelho, de um jeito que não conseguia ver seu reflexo. O velho resumiu-se a um balanço negativo com a cabeça, virou as costas e foi embora. O espião continuou avançando. Quando viu seu ombro refletido, chorou. Vagarosamente foi se deslocando para a esquerda. De súbito, deu um pulo. Sorriu. Viu sua silhueta voando junto com ele. Mas durou pouco. Sentiu sua retina queimando, seguido pela sensação de que estava em uma fornalha. Seu corpo inteiro ardia.
Acordou no Hospital Geral de Tóquio. Ficou internado por uma semana com queimaduras de terceiro grau causadas pelo sol. Os médicos acharam que ele era albino, mas não entenderam porque os olhos do rapaz simplesmente viraram cinzas. Jack entendia. Sua retina sempre foi transparente. Quando finalmente virou opaca, não estava preparada pra tamanha radiação que iria receber. Inesperadamente, Jack não ligou para isso.
Recebeu alta do hospital, fez umas sessões de bronzeamento artificial, entrou em um curso de braile e começou a praticar kung-fu, justamente com o velhinho que lhe abriu os olhos.
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 20:51| argumentos.
Sexta-feira, Janeiro 09, 2004
Como a vida é engraçada:
Tudo marcado para a volta da viagem. Dia 5 seria o dia que pegaríamos a estrada. Errado. Algum rapaz repleto de ódio no coração rouba, na véspera, o rádio do carro. Felizmente a o corpo policial, efetivo como sempre, acha tal amigo do alheio e devolve para meu grande amigo e pai o objeto do furto. Papai, receoso em pegar a estrada por dez horas sem ter nada para ouvir, adia a viagem e instala o rádio.
Dia 6, de volta em casa, após todo aquele mal-estar devido ao pensamento de que nossa casa também poderia ter sido roubada - infundado, por sinal. Fui para a cama, vi TV, enrolei, enfim. Meia noite ligo o PC e tento conectar. Cadê linha telefônica? Modem fazendo uns barulhos estranhos. Arruma a caixinha da extensão, troca linha, troca ponto. Nada. Modem não funcionou. Queimado.
Ontem tentei não pensar em internet. Quase consegui.
Hoje, como podem perceber, um rapaz muito fofinho veio aqui e trocou o modem. Não que eu não soubesse fazê-lo, longe de mim, mas a palavra "Garantia" pesa bastante. O selo que garante a Garantia não pesa tanto assim - no máximo uns dois gramas - mas continua sendo legal mantê-lo intacto.
Voltando um pouco no tempo, noto que a maioria das idéias de textos que estão escritas aqui no meu bloquinho de anotações vieram à minha mente quando estava no banheiro. Cagando? Não. Tomando banho. Isso me fez notar que tomar banho não é apenas um ato de asseio, mas também um passeio pela própria mente, quase uma meditação. Difere do ato de defecar pelo simples fato de que, cagando, somos obrigados a fazer força, nos impedindo de tecer uma linha de pensamento mais profunda em relação a qualquer coisa.
Outra coisa interessante (ou Glorificando o sul do Brasil):
Andando pela BR 101 (apelidada de "brioi", culpa de um bêbado. No carro, querendo ir para Brusque, encosta e pergunta a meu primo como faz para chegar a "Brioi"), lê-se nas placas nomes como "Blumenau" e "Joinville". Aqui, na Dutra, lemos "Taubaté" e "Pindamonhangaba". Os Guaranis bem que podiam ter morado um pouco mais pra cima no Brasil. Sem preconceito.
Peço desculpas por ter escrito Blumenau com L no final. Obrigado, Patsy, por apontar o erro.
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Pro pessoal que sugeri a troca de links:
Tinha um txt com as URL dos blogs. Pois é. Perdi. Portanto, se o acordo ainda está de pé, dêem-me um toque em hunter_tcr@hotmail.com
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 18:35| argumentos.
Sábado, Janeiro 03, 2004
Pra quem não sabe, este pequeno lapso de posts deve-se a uma viagem que fiz (e que por sinal continuo fazendo) com destino ao sul do país. Não estou morto, não fiquei dislexo de uma hora pra outra ou coisa do tipo. Dia 5, caso não tenham roubado minha casa, estarei de volta postando qualquer merda aqui. Idéias fresquinhas de vez em quando pipocam na minha cabeça. Incrível como isso acontece somente quando estou curtindo a solidão que um banho oferece. Todas as idéias consideradas razoáveis estão sendo anotadas. Já já vocês ficam sabendo.
Outra coisa: falaram por aí (nos comentários do post anterior - meu xodó, diga-se) que o Semântica é um "blog famoso". Mesmo ficando extremamente lisonjeado (ou lisongeado, foda-se. Cadê meu Aurélio? Sempre esqueço essa palavra, por mais que a use), temo que meu blog não seja muito famoso. Sim, aquele esqueminha no Crussificados ajuda e muito nosso contador a crescer, mas o Uma Questão de Semântica só vai ser famoso mesmo quando algum jornal fizer matéria sobre ou então quando eu for entrevistado pelo Jô ou pelo Marcelo Tas. Adoro os dois, então não tenho preferência. Em aparência Tas fica na frente - Jô é muito pouco fotogênico, como se vê em qualquer revista de fofoca que o clica em algum show. Em audiência Jô leva - infelizmente o Vitrine ainda é muito pouco visto, se comparado ao Host da Globo. Em intelectualidade e credibilidade empatam: um é careca, outro é gordinho. Credibilidade até no visual. Uma belezura.
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 03:25| argumentos.
Segunda-feira, Dezembro 22, 2003
Bom, eu queria escrever um causo qualquer pra colocar aqui, mas a coisa foi ficando maior que eu... e saiu esse "monstro". Pra quem não está acostumado a ler vai parecer grande, mas leiam do mesmo jeito. Eu gostei.
Coisas da vida
Eram duas pessoas completamente diferentes.
Ele homem, ela mulher.
Ele pobre, ela rica.
Ele doente, ela saudável.
Ele ateu, ela evangélica.
Por ironia do destino, se conheceram. E se gostaram. Engajaram em um namorico, desses de criança: pegar na mão, beijinho chocho, risadinhas. Ela gostava. Ele também. Conversavam a valer, sobre tudo: futebol, futuro, computador, poesia. Às vezes conversavam até sobre religião, mas evitavam o assunto. Faziam de tudo, menos o que ele mais queria: sexo. Puro e simples. Depois do êxtase inicial do relacionamento, a única coisa em que pensava era ela pulando em cima dele.
Certo dia, num sábado a tarde, resolveram ir ao cinema. Assistiriam um filmezinho qualquer, já que não estavam interessados em prestar atenção à apresentação. Como ambos eram menores de idade, usariam o cinema como motel - Não no sentido mais extenso da palavra, mas estavam pensando em fazer uma loucurinha ou outra.
E, sendo assim, foram.
Filminho chato, aquele! Quatro pessoas na sala: os dois, uma senhora na fileira da frente e um rapazinho sentado no canto, porém a configuração não ficou por muito tempo assim. Tão logo o casal começou a se beijar, o homem e a velha mudaram de lugar. A velha pulou uma fileira para frente e o homem pulou três, andando na transversal, parando numa poltrona no mo meio da sala. A essa altura a menina já estava no colo do nosso amigo. Ambos estavam com fogo. "Vamos sair daqui", ele sugere. Ela ri, do jeito que só meninas muito excitadas conseguem rir. Aquele riso baixinho, gostoso, com a boca entreaberta. "Iríamos para onde?" pergunta, indo em direção à boca dele. "Sei lá", geme, "Vamos para o banheiro. Ninguém pode nos pegar lá". Ela o beija loucamente. "Vamos. Vou primeiro, você espera eu ver se tem alguém lá". Ele consente. Ela vai. Ele espera. "Vazio", ela fala, sem voz, só com a cabeça para fora. Ele lê seus lábios e avança. Já entra no banheiro feminino a agarrando. Ela senta na pia, de pernas abertas, com ele no meio, beijando seus seios, há pouco coberto por uma blusinha dessas modernas que aparecem nas propagandas. Ela, já descabelada, com a cara virada pra cima e olhos fechados, gemendo de prazer, empurrando a calça do namorado pra baixo, em um ímpeto enorme de cópula. Ele a puxa pelas coxas, levantando seu corpo e a colocando na privada, fechada. Trancam a porta do box. Tiram as roupas. Ela começa chupando o membro do rapaz. Um oral que ele nunca tinha visto igual, e era a primeira vez da garota. Minutos depois eles trocam de lugar. Ele senta e ela fica de pé. Colocam a camisinha. Ela, temendo pela dor que tanto falam que atinge a mulher virgem que dá pela primeira vez, senta nele, bem devagar. Não doeu tanto quanto ela pensava. Sangrou um pouquinho, para falar a verdade, mas nenhum rio de sangue digno de Cavaleiros do Zodíaco.
Cavaleiros do Zodíaco sim. Mesmo não parecendo a melhor colocação para se descrever um ato sexual, com amantes cheios de tesão, movimentos repetitivos e graciosos e toda aquela atmosfera densa, em parte criada pela respiração dos envolvidos, é uma colocação que vem muito a calhar nesta situação. Vejam o porquê:
Pouco tempo após começarem o sexo propriamente dito, a porta abre: o gerente, o lanterninha, a faxineira e a senhora da sessão.
"Eu falei!", grita a velha, com voz de gralha moribunda. "Eu falei! Esses dois aí não respeitou ninguém lá no filme! Ficou só nessa chupação, e era tão barulhento que nem dava pra ouvir o que o ator lá falava! Eu olhei pra cara do moleque... EU SABIA QUE ELE IA FAZER SEM-VERGONHICE!".
"Calma, senhora!", diz a faxineira, que não agüentava mais a velha despejando gritos em seu ouvido. "Não tinha ninguém lá na sala mesmo..."
"MAS TINHA EU, ora! Que despautério isso! Não respeitam mais nem uma mulher de idade!", resmunga e sai andando pra fora do banheiro. O lanterninha e a faxineira trocam olhares de "Putz grila" e ela vai atrás da velha, tentando acalmá-la.
"Muito bem, jovens", o gerente toma a palavra. "Acho que vocês nos devem uma explicação. Joalmir, cadê a roupa deles?"
Joalmir, o lanterninha, responde, meio sem jeito "Acho que está embaixo da bunda dele, senhor..."
"Oh sim", comenta o gerente, desconcertado. "Bom, filhos, a festa acabou, vistam-se", manda, fechando a porta do box.
Já vestido, o jovem sai do cubículo, bastante envergonhado, seguido da namorada.
"Nós temos que ligar para seus pais. Se vocês tiverem a bondade de nos dar os números dos telefones...", pede o gerente, rapidamente cortado pelo garoto: "Vai nessa".
"Bom", o gerente sorri malevolamente, "se não conseguirmos falar com seus pais, teremos que falar com a polícia..."
Os namorados se entreolham. Ao fundo, fora do banheiro, pôde-se ouvir a velha grasnando "Mas nessa idade já fazendo besteira! Na minha idade se eu fizesse isso, Deus me livre o que poderia acontecer! Meu pai me matava e cortava o pingulim de quem estivesse comigo! Cruz credo! GRAÇAS A DEUS papai me colocou numa escola de freiras! Me poupou um grande trabalho me tirando do caminho que eu precisaria ficar a vida toda procurando um marido e me colocou no caminho da oração... QUE TODOS DEVIAM SEGUIR" e a faxineira, após isso, retrucando com um genial "Mas se todos fossem padres e freiras, a senhora não estava aqui". Depois do argumento, ao que parece, a velha parou de falar bobagem. Mas de falar bobagem na altura que falava, isso, com certeza, a velha parou.
Voltando ao banheiro feminino. Namorados transtornados, gerente pê-da-vida e lanterninha inútil sobrando.
A garota dá um passo à frente e diz, corajosa "tressetedoisum, meiameia nove quatro". "Como?", pergunta o gerente, de novo, dessa vez mais interessado. "Tressetedoisum, meiameia nove quatro", repete a menina. "Trestresmeiacinco, meiadois meiadois", fala o garoto.
"Ok. Joelmar, ligue para os pais desses jovens. Diga-lhes para vir aqui urgente". O lanterninha acata a ordem com um movimento de cabeça, dá meia volta e vai embora, resmungando "Joalmir, porra. Joalmir".
"Mas que merda é essa que tá acontecendo aqui?", esbraveja o pai da garota, suado, entrando na sala da gerência.
"É que...", o gerente hesita, "... flagramos sua filha e esse rapaz aí em... é... uma situação nada agradável".
"Quê? Como assim 'situação nada agradável'?", pergunta, do fundo da sua inocência. O gerente, paralisado, procura palavras para responder. Desnecessário: o pai da menina pula em cima do garoto, gritando "O que você fez com a minha filha, seu desgraçado". Joalmir prontamente separa os dois. O pai da moça era visivelmente maior que o moleque. Era baixo, sim, mas tinha uma barriga e um braço de dar inveja. O garoto, por sua vez, era alto mas magrinho. Joalmir era o meio-termo entre os dois: meio alto, meio forte e meio barrigudo. A menina fala "Pai, pára com esse escândalo!". "Parar o cacete!" retruca o pai. "Esse traste aí vai é casar com você!", diz, apontando para a cara do rapaz. Ele solta sem querer uma risada "ah, claro.". "Ahhh! Vai sim! Ninguém, NINGUÉM faz isso com a minha filha e fica por isso mesmo!".
"Pai, quer parar com isto?", pede a filha, já transtornada a muito tempo.
"Parar? Filha!", surpreende-se. "Mas de que lado você está?", pergunta, com voz de cachorro morto. "Estou fazendo isso pro seu bem! ESSE rapaz aqui vai ter que arcar com as responsabilidades!", afirma, segurando o pescoço do namorado da filha. O gerente, vendo a cena, recomenda "Vamos acalmar os ânimos, gente. Pra começar: seu Arnaldo, solta o garoto. Vamos nos sentar e discutir isso feito adultos que somos". Encarando o pedido do gerente, o pai da moça bufa e, finalmente, senta.
"Esse cara vai se casar com a minha filha e ponto final!", brada.
"Paiê!"
"Bah!", responde o garoto. "Por que me casaria com ela?"
"Paiê! Se eu estivesse grávida, entenderia essa ceninha toda!"
"Mas a gente ainda não sabe disso. Ele vai casar com você SIM!", anuncia.
O garoto, matreiro, fica pensando em algo pra falar. Sua mente se ilumina. Vira-se para o pai da namorada e pergunta, categórico: "Qual a sua religião?"
"Bah! Como assim, 'minha religião'? Além do mais, que te importa!?".
O garoto sorri.
"Ora. Se você for religioso como sua filha é, você vai ser moralmente impedido de aceitar um casamento desse tipo".
"Ai, Cleyton, pára de falar isso pro meu pai..."
"Não... Calma aí filha." Ele se vira para o rapaz. "O que você quer dizer com isso?"
"Ai, pai..."
"Simples", o garoto exalta. "Você aceitaria, de livre e espontânea vontade, que sua filha se casasse com uma pessoa que não acredita que Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar, e aceitaria que os filhos da sua filha - seus netos - fossem criados em um ambiente sem Cristo?"
"Como? Não me diga que você é um desses?", duvida o pai.
O garoto se levanta. Estava pronto para fazer seu triunfante discurso sobre religião.
"Lá vem merda", fala a garota, sussurrando, para seus botões.
"Sim. Sou 'um desses', senhor. Acho que toda essa história de Cristo, Deus, é tudo uma tremenda idiotice. Sabe, se Deus é todo bondade, e todo poderoso, como você me explica", e é interrompido antes de acabar. Pelo pai da garota. Por um murro.
Ele cai no chão, mas sem antes não bater com a nuca na quina da mesa, fato que o fez perder os sentidos. De fato, que mais tarde o faria perder a vida.
Enquanto isso, fora do Shopping, aquela senhora idosa ia andando, esbravejando para si os "desaforos" que fora "obrigada" a "aturar". Estava tão concentrada nisso que não percebeu o carro vindo em sua direção.
Pá.
Morreu. A força do impacto fez seu corpo voar por 30 metros, até achar a superfície de água do mar que cobria o horizonte naquela avenida.
O cheiro de hospital naquela UTI era sufocante. Só aceitavam tal desconforto porque, bom, porque ali era um hospital. Já haviam-se passado treze dias. Quem repousava ao leito era nosso conhecido amigo, o que foi estapeado na gerência, com a cabeça enfaixada de gaze. Ali também se encontravam a garota, a essas alturas do campeonato já ex-namorada, e seu pai, resignado.
"Olha, filho. Eu... Eu não sei como poderia me desculpar. Eu estava com a cabeça quente, não pensei que íamos acabar nesse lugar.", diz, arrependido. "Só queria que soubesse que estamos fazendo o possível pra você sair dessa cama. Um parente meu neurologista vai vir ver o que você tem. Confie nele. Ele é muito bom".
"Tudo que vocês falam entram por um ouvido e sai pelo outro", fala, débil, o rapaz. "Não que eu queira, mas é que não tenho mais a esponja que ficava entre as minhas duas orelhas pra absorver a ideia do que vocês estão falando", brinca. "Não se preocupem comigo. Minha única preocupação agora é saber se Deus me aceita ou não", diz. Estava sendo irônico. A menina sorri. O pai da menina sorri. O garoto estava sendo irônico.
Mas eles não perceberam.
No dia seguinte, todos os diários da cidade falavam de um único assunto: o corpo que aparecera na praia na noite anterior. Peritos disseram que o corpo pertencia a uma mulher de idade e que, pela contagem de células vermelhas no sangue, estava morta há mais ou menos duas semanas. O corpo estava irreconhecível, com partes faltando, com a pele podre, ossos roídos, membros destroncados. Enfim, ninguém reclamou o corpo. Era a nossa querida velhinha ranzinza religiosa.
O dia era claro, vistoso. Um arco-íris despontava no céu, gabando-se de ser o único remanescente da chuva que se apossou do tempo de manhã. O cemitério já estava vazio, sendo que as únicas pessoas que estavam lá dentro, ambas vestidas de preto, eram o pai da menina e o pai do garoto. Um consolava o outro, sofrendo a dor da perda. Suas vozes ecoavam pelos becos de túmulos. "Foi o mínimo que pude fazer, seu Carlos. Cleyton, ainda na UTI, disse que queria que Deus o aceitasse. O mínimo que pude fazer foi homenagear a conversão de seu filho...", dizia, enquanto se distanciavam do túmulo do rapaz: um Mausoléu bonito, de pedra, com estátuas de ajos e santos e uma cruz no topo. Na porta lia-se "Vá em paz e desfrute da sua nova escolha".
Por outro lado, onde o corpo da anciã católica foi enterrado havia somente uma lápide retangular, onde podia se ler, entalhado, "Aqui jaz um indigente".
Thiago Bittencourt
escrito por THIAGO BITTENCOURT CARVALHO ROSA às 01:08| argumentos.
Quarta-feira, Dezembro 17, 2003
Notei que a maioria dos leitores não-assíduos deste site são ou punheteiros ou são punheteiros com fetiches muito, mas MUITO estranhos.
Porque digo isso?
Simples:
Introduzi (com todo o respeito) esse tal SiteMeter no site. Agora posso monitorar de onde vocês vêm |